Oitava edição
 

Editorial:

Está no ar a edição n° 8 da revista Mafuá, com a primeira leva de artigos aprovados na seleção para os números 8 e 9.

Criação:

Confira a criação digital Memento, de Jessé Torres, e ainda cinco poemas inéditos de Cláudio Celso Alano da Cruz.

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Bissexto:

Heron Moura, professor e pesquisador na área de Lingüística na Universidade Federal de Santa Catarina, participa como Ensaísta Bissexto em Literatura.

Obra Rara:

Com apresentação do professor Alckmar Luiz dos Santos, reproduzimos a edição inglesa do romance aventuresco Saint-Clair of the Isles; or, the outlaws of Barra, ou Saint Claire das Ilhas, em português, de 1853, na seção Obra Rara.
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Está no ar a edição n° 8 da revista Mafuá , com a primeira leva de artigos aprovados na seleção para os números 8 e 9. Foram submetidos 24 artigos, dos quais os 11 primeiros aprovados estão publicados nessa edição, produzidos por alunos de graduação de dez universidades do país. A cada edição é maior o número de universidades brasileiras representadas pelos trabalhos enviados, o que consolida a atuação da revista em âmbito nacional. Ditadura militar e cinema, literatura e memória, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Cesário Verde e Don Quixote estão entre os temas dos artigos que você confere na seção Ensaios .

A Mafuá n° 8 traz ainda outras seções. Heron Moura, professor e pesquisador na área de Lingüística na Universidade Federal de Santa Catarina, participa como Ensaísta Bissexto em Literatura , com os ensaios O Poema é uma Ilusão de ótica e O zunido azul do violão: o executivo que era poeta , este último sobre o norte-americano Wallace Stevens. Na seção Criações , temos Jessé Torres, com a criação digital Memento , e cinco poemas inéditos de Cláudio Celso Alano da Cruz.

Nossa obra rara é do início do século XIX. Escrito pela inglesa Elisabeth Helme em 1803, o romance aventuresco Saint-Clair of the Isles; or, the outlaws of Barra , ou Saint Claire das Ilhas , em português, aparece citado em obras de Machado de Assis, José de Alencar e Guimarães Rosa. Com texto de apresentação do professor Alckmar Luiz dos Santos, reproduzimos a edição inglesa desse romance, de 1853, na seção Obra Rara . E, pela capa dessa edição, agradecemos ao artista Plínio Fuentes, que colaborou produzindo a belíssima imagem que você vê no início. Mais informações sobre o artista no blog www.pliniofuentes.blogspot.com .

Lembramos que a Mafuá n° 9 tem lançamento previsto para março de 2008, quando será publicada a segunda leva de artigos aprovados na seleção do segundo semestre de 2007. Portanto os autores que submeteram trabalhos e não receberam o e-mail com o resultado, deverão recebê-lo entre o final de fevereiro e o início de março. O período para submissão de artigos para a Mafuá n° 10 abre em abril de 2008.

Bom final de ano a todos e até a próxima.

Comissão editorial

Ensaios

JOGOS DE MEMÓRIA: a releitura poética de Cecília Meireles no Romanceiro da inconfidência
Mariana Moreira Fernandes Barata

AS PATHEMATA DA CIDADE MODERNA: uma leitura via Cesário Verde
Evandro de Sousa

INTERTEXTUALIDADE: a presença da obra Fausto de Goethe no conto “A igreja do diabo” de Machado de Assis
Felipe dos Santos Matias

A MEMÓRIA COMO ARTIFÍCIO DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA
Jordânia A. da S. Oliveira

TRAVESÍAS Y PUENTES: la dinámica de la supervivencia en “El mundo es ancho y ajeno”.
Bárbara Nayla Piñeiro Pessôa

DA PRECARIEDADE DO SUJEITO À POTÊNCIA DE EXISTIR: uma trajetória de libertação
Clara Altenfelder Santos

A DITADURA MILITAR DO LIVRO PARA A TELA: as (des)construções da identidade em Lamarca e Cabra Cega
Gisella Meneguelli de Sousa

“TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA”: a desconstrução do sujeito-nacional romântico
Gislei Martins de Souza

LAS ESTRUCTURAS LABERÍNTICAS EN DON QUIJOTE DE LA MANCHA
Santo Gabriel Vaccaro

LEITO DE FOLHAS VERDES: análise dos elementos estruturantes do poema
Salete Valer

O SENSÓRIO E O FUGIDIO: velhice na Prosa de Hilda Hilst
Marcos de Campos Visnadi

Criações

Video Poema - Memento [16MB]

        de Jessé Torres

Tríptico Plítico e outros Poemas

        de  Cláudio Celso Alano da Cruz

Ensaísta Bissexto em Literatura

O poema é uma ilusão de ótica

de Heron Moura

O poema é uma ilusão de ótica, e nisso residem sua fraqueza e sua força. Veja a figura abaixo.

A mesa da esquerda parece mais longa e mais estreita; a da direita, mais curta e mais larga. Fantástica ilusão: elas são na verdade do mesmo tamanho e forma. A nossa mente vê o que consegue. E o poema também, como trabalho da mente e do corpo, vê o que o ilude. O poema é uma longa elaboração de uma ilusão de ótica.

A fragilidade desse estado é evidente; a ilusão de ótica nos afasta do mundo, nos engana, tropeçamos no degrau que não vemos, pois a superfície plana apaga as outras dimensões. Somos reféns de nossa mente no poema. Com o agravante de que uma ilusão visual pode ser desfeita a qualquer instante: pegue uma régua e meça as mesas. Se você submerge um remo e pela refração o vê partido, basta apenas tirá-lo da água para recompor a sua forma real. Mas o poema não pode ser retirado da água, ele vive num aquário.

Mas como nascem as ilusões de ótica? O neurocientista e lingüista Steven Pinker, no livro Tábula Rasa , observa que as ilusões de ótica são resultado do processo adaptativo da mente humana ao meio circundante, e surgem como efeito de nossa tentativa de impor ordem ao caos da percepção do mundo externo. O olho subdivide o mundo em várias dimensões; a imagem visual é o resultado de uma soma de combinações e elementos que o olho processa. E o olho dá mais ênfase a um objeto na vertical, deixando em segundo plano um objeto similar na horizontal. Por quê? Um objeto alongando-se na vertical, como a mesa à esquerda, parece se perder no horizonte, como um animal em fuga, e aí a mente compensa essa distância aumentando o tamanho percebido do objeto, o que gera a distorção das figuras das mesas. A ilusão de ótica não é uma forma de perder o mundo, mas uma tentativa desesperada de fisgá-lo.

Assim é o poema. O poema é uma construção da mente e do corpo, tão elaborada como o nosso sistema visual, de retina e íris. O verdadeiro poema nos ilude de uma forma tão perfeita quanto o remo quebrado que vemos submerso na água.

No poema Treze maneiras de olhar para um melro , o poeta norte-americano Wallace Stevens confunde ilusão e percepção, perda e ganho do mundo, através da imaginação. A tradução é minha:

I was of three minds

Like a tree

In which there are three blackbirds.

Eu tinha três mentes

Como uma árvore

Com três melros.

O poeta tem três mentes, três opiniões, três visões do mundo. Ele partiu o percebido em três partes, ele segmentou o universo num triângulo. O que ele vê é o retrato de sua mente, um aparelho eficaz mas altamente fragmentado. Quantas vezes dividimos um objeto ou a visão de uma pessoa em partes distintas e desconexas entre si! Mas se há ilusões de ótica que separam, há aquelas que unem o que está separado:

A man and a woman

Are one.

A man and a woman and a blackbird

Are one.

Um homem e uma mulher

São um.

Um homem e uma mulher e um melro

São um.

Mas isso não é verdade. O homem e a mulher e o melro estão separados no mundo, mas a imaginação os vê fundidos no poema. O poema é como o trabalho do amor: junta o que está irremediavelmente afastado, e cria um ser com um tronco e dois rostos, de peles sobrepostas. É uma imagem poética e grotesca, que sabemos falsa, mas amamos ainda assim, pois o poema e o amor são ambos ilusões de ótica. E nisso reside a sua força.

Once, a fear pierced him,

In that he mistook

The shadow of his equipage

For blackbirds.

Uma vez, um terror o acossou:

De que estivesse confundindo

A sombra de sua carruagem

Com melros.

O poema tenta tornar o mundo habitável. Para isso, uma sombra banal de estrada pode enganar os sentidos e produzir formas de pássaros onde só existe pó. Igualzinho como no amor e na vida.

O zunido azul do violão: o executivo que era poeta. 

de Heron Moura

Wallace Stevens, grande poeta norte-americano, era o contrário do que se espera de um poeta. Era alto executivo de uma empresa de seguros e seus colegas de trabalho sequer sabiam de seus livros de poemas. Não tinha amigos e vivia fechado em casa com um mulher a quem não amava. Quando morreu, o presidente da empresa na qual o poeta trabalhou durante anos comentou: “Stevens morreu de um ataque do coração. Só assim a gente descobriu que ele tinha coração”.

Trocou correspondência muito rica e quase pessoal com um escritor cubano, mas quando este visitava os Estados Unidos, Wallace Stevens refugava o contato, não queria encontrar o amigo por correspondência. Era um solitário, que no final da vida tentou restabelecer contatos com parentes através de pesquisas genealógicas, o que é outra forma de exercer a solidão.

Mas leiam os poemas desse chefe retraído e burguês: são exuberantes e vívidos, e o que é mais espantoso, plenos de personagens, diálogos e imagens. Uma multidão sussurrava no ouvido do solitário. Uma multidão de nomes. Como se Bush conversasse secretamente com amigos cubanos amantes de rumba. Um dos livros mais belos de Wallace Stevens se chama “O homem do violão azul”. Mas quem é esse homem que toca violão e ainda por cima azul? Baudelaire pintava o cabelo de verde, Murilo Mendes dava bom dia aos rios que atravessava. Mas Wallace Stevens? Ele mal sorria para a sua secretária! E aí vem o decreto do oráculo universitário: o poema nada tem a ver com o poeta; a poesia nada deve à biografia.

Mas será que não tem nada mesmo a ver? Wallace Stevens formulou uma interessante teoria sobre o poema: a teoria da ficção suprema. A ficção suprema é uma narrativa imaginária que você sabe que é imaginária, e ainda assim acredita nela. Você supera a descrença, mas não a elimina. É algo diferente de acreditar em Deus, por exemplo: ninguém que acredita de fato em Deus imagina que ele seja uma ficção. Pois bem, o executivo Wallace Stevens dizia que a poesia é um tipo de ficção suprema, apropriada aos nossos tempos de descrença: o poema evoca um mundo falso em si mesmo, mas os poetas e seus leitores acreditam nesse mundo mesmo sabendo que ele é falso. E o homem do violão azul também acredita nessa ficção suprema. Ele devolve ao executivo um violão que este nunca teve: o homem do violão azul é e não é o próprio Wallace Stevens. Mas houve pelo menos uma pessoa no mundo que acreditou que era de fato o homem do violão azul: essa pessoa era o executivo Wallace Stevens. Essa era sua ficção suprema. Não que ele fosse um napoleão de hospício. Ele sabia que essa identidade era absurda, ele nunca saiu de seu escritório na seguradora, mas essa identidade era profundamente real no poema. Quem transformava o executivo no homem do violão? O próprio poema:

They said, “You have a blue guitar,

You do not play things as they are”.

The man replied, “Things as they are

Are changed upon the guitar”.

Disseram: “É azul teu violão,

Não tocas as coisas como são”.

E o homem disse: “As coisas como são

Se modificam sobre o violão”.

(Tradução de Paulo Henriques Britto).

O executivo e o instrumentista estão ligados pelo violão. São partes do violão. O poema, ao contrário do que reza a ortodoxia, se alimenta da biografia. Wallace Stevens era um tocador de violão, mas de uma forma não harmônica. A imaginação do poema, a ficção suprema do eu, embute também uma perda, a do homem que não tinha coração. Não se trata, no poema, de uma identificação catártica, de assumir uma máscara, como nos romances. O poeta é só aquilo, o eu de seu poema. Ou melhor, sua vida e a vida de seus poemas formam um todo, estão ligados por algum meio, seja um violão, seja uma pedra.

Não se trata daquela história de Flaubert, que dizia de sua personagem mais famosa: “Madame Bovary sou eu”. Flaubert sabia que estava apenas traçando um paralelo entre duas vidas, uma imaginária e uma real, e que de fato ele não era Bovary. Pois bem, na ficção suprema, o poeta é o personagem do poema: não são linhas paralelas, é a mesma linha que liga o poema e o poeta. O narrador deve sentir uma liberação ao inventar uma vida; o poeta fica encalacrado na vida que ele inventou.

Há um conto muito bonito de Roberto Bolaño, escritor chileno, em que o personagem observa as fotos de poetas de língua francesa do século XX numa antologia. Ele sente que cada foto é uma ponte que ele não sabe bem para onde leva, mas pressente de quê é feita essa ponte: da poesia de cada poeta. O rosto do poeta aponta para o poema, é já um elemento do poema. E paradoxalmente o poema aponta também para o rosto do poeta.

Se isso tem lógica, devemos não só perceber um violão imaginário na mão do executivo burguês, mas reconhecer também gestos do executivo no tocador do violão. E é isso mesmo que eu sinto, como leitor de Wallace Stevens. Primeiro, uma alegria por ver tanta exuberância de vozes e percepções, tantos imperadores do sorvete, mas depois (ou simultaneamente), a impressão de uma devastação, do silêncio de uma montanha, ou de um escritório de companhia de seguros. O poema é o anseio imemorial de ser outro, de viver a vida de outro. Mas o violão toca a nós mesmos.

And that´s life, then: things as they are,

This buzzing of the blue guitar.

E a vida é isso: as coisas como são,

Este zunido azul do violão.

 

Obra Rara

Um livro hoje em surdina

Alckmar Luiz dos Santos

Saint-Clair of the Isles; or, the outlaws of Barra [baixar livro PDF 50MB] [baixar livro ZIP 35MB] foi um romance escrito pela inglesa Elizabeth Helme e publicado em 1803, em quatro volumes. Era ela autora de folhetins de certo sucesso, escrevendo dentro da linhagem típica dos romances aventurescos, em toada nacionalista e ritmo de galopantes emoções, como de costume na prosa de ficção dos idos românticos. Tratava-se, em suma, daquelas obras divulgadas habitualmente em leituras coletivas, reunindo a família em serões noturnos em que um leitor mais habilidoso sabia dar às frases dos escritores o tom e o sentimento adequados. O Saint-Clair foi então rapidamente traduzido: na França, por Mme de Montolieu, em 1808; no Brasil, em 1825, no Rio de Janeiro, na Tipografia de Silva Porto, a partir do original inglês; em Portugal, em 1827, por um certo A. V. de Costa e Sousa; ainda em Portugal, em 1901, em tradução de Oscar Ney da edição francesa. Marlyse Meyer e Sandra Guardini Vasconcelos dão também a tradução portuguesa de Costa e Sousa como tendo sido feita a partir da francesa e, como era comum naquela época, consagrando Mme de Montolieu como autora do romance e não quem de direito, Elizabeth Helme. Contudo, a Biblioteca Nacional de Lisboa, em seu catálogo, dá essa tradução de 1827, impressa em Lisboa, na Tipografia Rolandiana, como realizada a partir do original inglês. De toda maneira, não cabe contestação de que a tradução brasileira antecedeu a portuguesa em dois anos, o que já antecipava, talvez, o sucesso do livro em nossas terras.

De fato, Saint-Clair tornou-se até mesmo nome de alguma freqüência no Brasil, desde o século XIX; em minha infância, tive amigo por nós chamado, por economia e facilidade, de Cla-ir, mas que ostentava o nome inteiro de Saint-Clair; em rápida pesquisa na internete, encontramos Saint Clair Rocha, Saint-Clair Bahls, Gilmar Saint'Clair Ribeiro, Saint Clair Dos Santos Gomes Júnior, Ricardo Saint Clair, Francisco Saint Clair de Sousa Filho, Saint Clair Cemin, Saint-Clair Lopes, e mais uma infinidade de gente, sem contar as variações Sanclér, Sencler etc. O próprio romance é citado em várias obras, por alguns de nossos mais importantes escritores, fazendo referência à consagração que ele merecia por parte do público leitor (ou apenas ouvinte, no caso dos inúmeros analfabetos que, graças às leituras em voz alta, entraram em contato com esse tipo de romance), além de reconhecer o papel do velho relato inglês em sua formação literária, mesmo se um ou outro desdenhasse das qualidade da narrativa de Elizabeth Helme. Em Como e por que sou romancista, José de Alencar diz:

Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?

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Nosso repertório romântico era pequeno; compunha-se de uma dúzia de obras entre as quais primavam a Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e outras de que já não me recordo.

Na sua História da Literatura Brasileira, José Veríssimo comenta este trecho de Alencar:

Confessa José de Alencar, aliás em páginas bem insignificantes, que após estudos clássicos malfeitos, como foram sempre os nossos dos chamados preparatórios, os livros que leu foram maus romances franceses, Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e quejandos em ruins traduções portuguesas. Leu-os e os releu e, reconhece ele próprio, foi essa leitura que lhe influiu a imaginação, cuja herança atribui à mãe, para se fazer romancista.

Na prosa de ficção do nosso Novecentos, o Saint-Clair das Ilhas aparece várias vezes na pena de Machado de Assis. Na “Anedota Pecuniária”, conto que está em Histórias sem data, temos:

Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e moça; não seria ela quem lhe faria o chá, quem lhe traria, à noite, quando ele quisesse ler, o velho tomo ensebado do Saint-Clair das ilhas, dádiva de 1850.

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Às vezes, como a vista do tio começava a diminuir muito, lia-lhe ela mesma alguma página do Saint-Clair das ilhas.

No conto Ayres e Vergueiro, publicado originalmente no Jornal das Famílias, em 1871, aparece:

Conversava com ele longas horas, ensinava-lhe alguns jogos, lia-lhe o Saint Clair das Ilhas, aquela velha história de uns desterrados da ilha da Barra.

No romance Helena:

Na seguinte manhã, Estácio levantou-se tarde e foi direito à sala de jantar, onde encontrou D. Úrsula, pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso, ao pé de uma janela, a ler um tomo do Saint-Clair das Ilhas, enternecida pela centésima vez com as tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e mora­líssimo livro, ainda que enfadonho e maçudo, como outros de seu tempo. Com ele matavam as matronas daquela quadra muitas ho­ras compridas do inverno, com ele se encheu muito serão pacífico, com ele se desafogou o coração de muita lágrima sobressalente.

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Úrsula estava então na sala de costura, relendo algumas páginas do seu Saint-Clair, encostada a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a concluir uma obra de crochet.

Em Casa Velha, conta-se que:

Era a mesma novela que lera quando ali esteve um ano antes, e queria reler agora: era o Saint Clair das Ilhas ou os Desterrados na Ilha da Barra. Meteu a mão no bolso e tirou os óculos, depois a caixa de rapé, e pôs tudo no regaço.

No Quincas Borba, na primeira publicação, a dos folhetins d'A Estação, temos:

Logo que Rubião dobrou a esquina da rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pae, que se estendera no canapé, para reler o velho Saint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha da Barra. Foi o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte annos; era toda a bibliotheca do pae e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II [1] , que já trazia de cór. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos: "Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. Á saude dos bons e valentes opprimidos, e ao castigo dos seus oppressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saude."

E, no século XX, no Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, o velho romance inglês é citado:

Mas o dono do sítio, que não sabia ler nem escrever, assim mesmo possuía um livro, capeado em couro, que se chamava o “Senclér das Ilhas”, e que pedi para deletrear nos meus descansos. Foi o primeiro desses que encontrei, de romance, porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. Nele achei outras verdades, muito extraordinárias.

Contudo, essa presença, já antiga, do Saint-Clair, nos subterrâneos e nas intimidades da literatura brasileira, não tem sido suficiente para tirá-lo do status de obra citada mas nunca consultada, e muito menos lida. Afora dois ensaios de Marlyse Meyer [2] e algumas outras referências esparsas, quem consulta os estudos de literatura brasileira, pouco encontra sobre esse livro tanto lido e tão influente, desde a fase primeira de nossa literatura nacional. Publicar essa edição inglesa, de 1853, é uma maneira de colocar o velho Saint-Clair das Ilhas novamente em circulação. Que venham, agora, a seguir, as edições em Português.


[1] Na edição inglesa que temos, esse trecho aparece no capítulo III, o que insinua que Machado tinha em mãos uma tradução em Português feita muito provavelmente a partir da traduction libre de M me de Montolieu.

[2] “Prólogo: Saintclair das ilhas ” . In: Folhetim: uma história . São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 19-52. “ Machado de Assis lê Saint-Clair das ilhas ” . In: As mil faces de um herói canalha . Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. p. 31-107.

Responsabilidade Editorial

CONSELHO EDITORIAL

Aírton Sampaio Araújo (Universidade Federal do Piauí)

Alamir Aquino Correa (Universidade Estadual de Londrina)

Alckmar Luiz dos Santos (Universidade Federal de Santa Catarina)

Armelle Le Bars (Universidade Paris 3)

Artur Emílio Alarcon Vaz (Fundação Universidade Federal do Rio Grande)

Carlos Maciel (Universidade de Nantes)

Fabio de Carvalho Messa (Universidade do Sul de Santa Catarina)

Gilda Neves da Silva Bittencourt (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Jaime Ginzburg (Universidade de São Paulo)

João Ernesto Weber (Universidade Federal de Santa Catarina)

José Luís Jobim (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Lucila Nogueira (Universidade Federal de Pernambuco)

Luís André Nepomuceno (Centro Universitário de Patos de Minas)

Luis Filipe Ribeiro (Universidade Federal Fluminense)

Marcos Antônio Siscar (Universidade Estadual Paulista – S. J. Rio Preto)

Maria José Angeli de Paula (Universidade Estadual de Ponta Grossa)

Markus J. Weininger (Universidade Federal de Santa Catarina)

Rosana Cássia Kamita (Universidade Federal de Santa Catarina)

Saulo Cunha de Serpa Brandão (Universidade Federal do Piauí)

Simone Pereira Schmidt (Universidade Federal de Santa Catarina)

Suzi Frankl Sperber (Universidade Estadual de Campinas)

Tânia Regina Oliveira Ramos (Universidade Federal de Santa Catarina)

Wander Nunes Frota (Universidade Federal do Piauí)

COMISSÃO EDITORIAL

Alckmar Luiz dos Santos

Cristiano de Sales

Saulo Cunha de Serpa Brandão

Deise Joelen Tarouco de Freitas

Ana Lúcia Pessotto dos Santos

Otávio Guimarães Tavares

Tecia Estefana Vailati

 

- NUPILL / UFSC - Florianópolis, SC - Brasil
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