Mafuá - Revista de Literatura em Meio Digital

obra rara

O Cysne (2ª ed., 1912), de Baptista Cepellos

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Enfim, chegado à cúspide de um monte

Samanta Rosa Maia

Quando Mello Nóbrega expôs os objetivos do seu ensaio sobre Batista Cepelos colocando entre eles o de “recordar uma personalidade fixada pela morte [...]” (1937, p. 16, grifos meus), não poderia ter definido melhor a história do poeta.

Nascido no estado de São Paulo, na vila Cotia, em 10 de dezembro de 1872, Cepelos primeiro tentou carreira militar, depois a abandonou; em 1898 iniciou o curso na Faculdade de Direito, no qual se formou em 1902; em 1909 inaugurou sua participação no jornal, escrevendo para o Diário da Manhã, e tendo depois se mudado para o Rio de Janeiro, onde exerceu, simultaneamente, a advocacia e o jornalismo, morreu misteriosamente. “O mais que haja feito em seus quarenta e três anos de vida”, de acordo com Nóbrega, “não concorre para sua glória”, isso porque maior que sua história de vida é sua história de morte, e essa, por sua vez, estaria, conforme amigos como René Thiollier, estreitamente ligada à sua história literária.

Abaixo transcrevemos a notícia do falecimento do escritor publicada no Jornal do Brasil no dia 9 de maio de 1905:

POR UM DESPENHADEIRO ABAIXO
PERSEGUIDO PELA FATALIDADE MORRE TRAGICAMENTE O DR. BAPTISTA CEPELLOS
SUICÍDIO, DESASTRE OU CRIME?

No bolso do malogrado poeta foi encontrado o seguinte soneto, de sua lavra, talvez sua última produção:


OLHAR

Não me olhes assim, de tão suave maneira,
A luz do teu olhar caindo na minh’alma
É como um rio azul de sempiterna calma
De quem já desfolhou a Ilusão derradeira.

Não me olhes assim. Olha-me a vida inteira.
E num sonho feliz em um mundo de calma
Eu sonharei feliz na sempiterna calma
De quem já desfolhou a Ilusão derradeira.

Olha-me sempre assim. Teu olhar me abençoa.
À luz do teu olhar eu me julgo vogando
Por um rio d’anil que murmura e que desce...

Olha-me sempre assim. Olha-me a vida inteira.
À luz do teu olhar eu me vou libertando
Do minuto que passa e do tempo que voa.

Há destinos que se não compreendem que nos deixam, diante de sua brutal realidade, como que apavorados e descrentes ao sentirmos a existência humana, indo do presente conhecido para o futuro que se ignora, pode, subitamente, sem que nada o faça prever, findar no horror de uma tragédia, aniquilar-se, desaparecer de um modo cruel, atroz, espantoso.
Outra não foi a impressão sentida, ontem, logo que começou a circular a notícia, a triste e comovedora notícia da morte trágica de Baptista Cepellos, o suave e inspirado cantor de um sem número de poemas maviosos e belíssimos, cuja existência, por mais de um título preciosa, nunca participara da suavidade dos seus versos, mas fora sempre agitada e triste, como que a adverti-lo da negrura do seu destino.
Baptista Cepellos, cuja morte enluta as letras pátrias e enche de sincera tristeza quantos o admiravam através das suas produções poéticas de [...] lavor e grande sentimento, não era como se poderia supor ao ler os seus versos uma criatura feliz. Um fato tristíssimo, desses que por uma ironia da sorte só ocorrem na vida dos homens de valor, apunhalava-lhe a alma profundamente, produzindo-lhe o tremendo abalo sofrido esse mal terrível e incurável que é a neurastesia.
[...]
O poeta Manuel Baptista Cepellos nasceu, como já dissemos, em São Paulo, em 1868.
Criado e educado naquele grande centro, a primeira carreira que se lhe deparou foi a militar, chegando a ser oficial da polícia militar daquele Estado, carreira que abandonou pela das letras, matriculando-se então na Faculdade de Direito de S. Paulo por onde se bacharelou.
Data dessa época sua maior produção literária. Advogado, senhor da sua profissão, apaixonou-se por uma filha do Senador Peixoto Gomide, sendo seu amor correspondido. O senador, porém, opôs-se formalmente ao casamento e como seu intento, em um movimento de desvario, matou-a e suicidou-se em seguida.
Batista Cepellos segundo afirmam amigos seus tentou suicidar-se nessa ocasião. Passados, porém, os primeiros dias de desespero como que para fugir da amargura, mudou-se para o Rio de Janeiro, desaparecendo, porém, desde esse dia a verdadeira alegria do cantor d’Os bandeirantes.
Aqui adotou como meio de vida a advocacia não lhe correndo, porém, propícios os negócios.
Era justamente estimado nas rodas de imprensa e literárias e está ainda bem presente no espírito público o êxito que alcançou no Trianon a lenda bíblica em verso, de sua lavra – Maria Magdalena.
Fazem também parte de sua bagagem literária, além de outras produções, A Derrubada, escrita em 1895; O cysne encantado, em 1902; Os bandeirantes, em 1906; Vaidades, em 1908; e O vil metal, em 1910.
Projetava-se, para breves dias uma festa artística, no Trianon, em homenagem do ilustre poeta da Maria Magdalena, na qual tomariam parte muitos dos nossos melhores artistas teatrais.
Eis as notas policiais colhidas sobre o fato, que foi a nota triste do dia de ontem:
Pela manhã moradores do prédio n. 119 da rua Pedro Américo depararam com o cadáver de um homem nos fundos do quintal, na base da pedreira ali existente.
O fato foi imediatamente comunicado à polícia do 6º Distrito e o comissário Antenor Thibau, partindo para o local, deparou com o cadáver ensanguentado de cabeça para baixo, com o corpo enrodilhado, as vestes em desalinho e rotas, com algumas manchas de sangue.
Examinado o local nada notou de anormal e que pudesse levantar a suspeita de que um crime tivesse ali sido praticado.
Na ladeira, porém, havia algo que patenteava que o corpo tivesse rolado do alto ao solo.
Quem olhasse de baixo para cima notaria nas pontas salientes das pedras, manchas de sangue. Presos ao mato viam-se um chapéu e um dos punhos do morto.
O comissário concluiu então que o corpo despenhara-se do alto de uns terrenos ao fim da travessa Cruzeiro do Sul ou da rua Tavares Bastos.
Antes de outra qualquer medida o comissário requisitou o fotógrafo do Gabinete de Identificação e um médico legista da polícia para que fosse fotografar a posição em que foi encontrado o cadáver e fosse ao mesmo tempo feito o exame do local.
Algumas horas depois compareciam o Sr. Dr. Antenor Costa, médico legista da polícia, que examinando o cadáver verificou haver a luxação do braço esquerdo e contusões e escoriações pelo corpo produzidas no rolar de encontro às pedras.
Feito isto, dando o médico e o fotógrafo os seus serviços por concluídos, o comissário Thibau, que andara nas pesquisas pelas proximidades sem nada conseguir que adiantasse, resolveu então passar uma revista nos bolsos do infeliz.
Encontrou então diversos cartões de visitas com os seguintes dizeres:

“Dr. Manuel Baptista Cepellos. Escritório: Praça Tiradentes, n. 39. Rio”

Além do soneto que acima reproduzimos e que tinha a sua assinatura.
Não havia mais a menor dúvida: tratava-se do poeta Dr. Baptista Cepellos.
Depois de arrecadas os papeis encontrados em seu poder, o comissário Thibau fez remover o cadáver para o Necrotério, onde mais tarde foi autopsiado pelos Srs. Drs. Sebastião Cortes e Suzano Brandão, sendo dada como causa da morte fratura da bacia.
Na Delegacia do 6º Distrito foi aberto inquérito para aparar este caso sobremaneira esquisita, pois ninguém ouviu o menor rumor, o menor grito, e menor falar, nada enfim que pudesse denunciar uma luta ou uma agressão ou mesmo uma discussão.
O que mais esquisito se torna é ninguém poder atinar o que teria ido ali fazer em horas mortas da noite o inditoso poeta, quando é certo que a sua residência era à rua Silva Manuel, n. 101.
Os seus amigos mais íntimos pelo que ontem ouvimos, estão propensos a acreditar que Baptista Cepellos vivendo ultimamente acabrunhado, fosse voluntariamente à procura da morte.
[...]

Para o biógrafo Arruda Dantas, a mudança de Batista Cepelos de São Paulo para o Rio de Janeiro teria mesmo ocorrido pela decepção do noivado (a tragédia ocorrera em 1906), ao qual teria se somado, contudo, outro fator importante: o sensacionalismo da imprensa em torno do acontecimento, “principalmente devido à posição social das pessoas envolvidas. Alvitram-se hipóteses, as mais cruéis, humilhantes e até difamantes, para explicar a incompreensível tragédia” (DANTAS, s.d., p. 17). No Rio, Cepelos teria ficado desempregado, dependendo dos serviços que os amigos lhe arranjavam na imprensa. Sem perspectivas com a advocacia, logo morreu.

O conjunto da obra de Batista Cepelos não é grande. O autor publicou o primeiro livro, de poemas, A derrubada, em 1895. O cysne, livro de poemas que disponibilizamos ao leitor neste número da revista, e que teve a primeira edição no ano de 1902 e a segunda e última edição em 1912, é sua segunda publicação. Depois dele, Cepelos publicou Os Bandeirantes, livro de poemas “ao culto da pátria e dos heróis” (NÓBREGA, 1937, p. 50), que, prefaciado por Olavo Bilac, alcançou três edições: 1906, 1908 e 1911; Os corvos, livro de contos, em 1907; Vaidades, poemas, em 1908; Vil Metal, romance, em 1910; Maria Madalena, peça bíblica, em 1915; e teria escrito ainda um outro livro de contos, intitulado Sensações da vida, que teria se perdido.

Cepelos também não teve uma estreia literária esfuziante. Sobre O Cysne, conta-se que teria desagradado a Vicente de Carvalho pela falta de originalidade. Segundo René Thiollier, Carvalho teria comparado O Cysne com Os simples, de Guerra Junqueiro: “o belo senhor de olhos cor d’esperança, que abandona o lar carinhoso e as doçuras da vida simples para seguir a miragem da sua ambição de glória. O mesmo é o que acontece com o personagem principal do poema de Cepelos – o jovem Ofir [...].” (THIOLLIER, 1956, p. 22). No entanto, embora a possibilidade de os livros serem aproximados exista com certa força, Thiollier (1956, p. 23-24) faz acréscimos biográficos à versão dessa interpretação, tornando-a secundária em relação à que privilegia os dados da vida do poeta:

É possível Vicente de Carvalho tivesse razão. A semelhança entre ambos os entrechos é inegável, sem dúvida. Todavia, eu que convivi com Cepelos posso asseverar que o “Cisne encantado” é a história de sua vida. História profética que ele escrevera antes de a ter vivido, porque, como diz Maeterlinck – a criança, ao nascer traz oculto no seu cérebro, ainda por fechar, o filme em que se encontra prefigurado tudo quanto lhe vai acontecer na vida [...] Ofir é ele próprio, que deixa a sua vila natal, no interior, e vem para S. Paulo, por sugestão de um amigo. Aqui, ao chegar, imagina que tudo lhe vai ser fácil, com facilidade conseguirá uma colocação que lhe permita prosseguir nos estudos iniciados na roça. Mas não, tudo lhe são tropeços. E é para não morrer a fome que se vê forçado a assentar praça na Força Pública, que, naquele tempo, não era a corporação de elite que é hoje. Claro está que, para um espírito como o dele que sentia que tinha asas, podia librar-se a grandes alturas, e mormente para quem saíra pelo mundo em busca do cisne encantado, a decepção fora amarga. Mas, mesmo assim, nunca se lhe desvanecera a esperança de realizar o seu sonho. E, agora, mais do que nunca, Cepelos tinha os olhos fitos na Faculdade de Direito.
Uma nova decepção, no entanto, lhe estava reservada para logo depois da sua formatura. É que ele não tarda em convencer-se de que jamais poderá utilizar-se da sua carta de bacharel; falta-lhe vocação para isso. [...]

Como se pode conferir nos “fragmentos de algumas opiniões críticas” anexados ao livro, assim como longas e garrafais manchetes destacando a morte e os infortúnios de Cepelos, comparações não faltam! A poetisa Francisca Júlia comparou O Cysne ao Sagramor, de Eugênio de Castro...

Já Mello Nóbrega viu nos versos de Cepelos a “incompreensão da natureza”, de influência baudelairiana: “daí o desviar-se para a análise da própria inquietude, procurando conhecer-se, deslizando ao longo de teorias filosóficas e sociais. Leu os pensadores alemães e acertou o passo pelos poetas revolucionários. Baudelaire e Verlaine, principalmente. Desse período datam as estrofes de “O cisne encantado”, cujas intenções avançadas não lograram, entretanto, assimilar os cânones decadentistas” (NÓBREGA, 1937, p. 56). Vale lembrar ainda que o escritor foi apontado por José Paulo Paes como o primeiro tradutor de Mallarmé no Brasil, com a tradução do poema “O azul”, publicado em Vaidades...

Está, portanto, com o leitor a incumbência de dar ou não um segundo momento de glória ao escritor:

A glória! quem não luta ou não cai pela glória!
Quem não sonhou possui-la, ao menos um momento,
Se a ambição de viver, nesta vida ilusória,
É dela que recebe a força e o movimento

Porque a vida é viver para sempre na História,
A corporificar um grande pensamento
E a ver as gerações, na eterna trajetória
Passarem, desparzindo os seus dias ao vento...

Mas a glória também pode mentir. Por isso,
Enquanto o nosso corpo está cheio de viço
Procuremos no amor a suprema vitória.

Porque, depondo a pena e a fantasia louca,
Só em ti, carne mortal, somente em tua boca,
Posso dizer que tive um momento de glória!

BATISTA CEPELOS, 1913

Referências

A ÉPOCA. Hemeroteca Digital Brasileira. Biblioteca Nacional Digital Brasil. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=720100&pesq=Baptista%20Cepellos&pasta=ano%20191. Acesso em: 20 out. 2015.

DANTAS, Arruda. Batista Cepelos. São Paulo: Edições Melhoramentos, s.d.

JORNAL DO BRASIL. Hemeroteca Digital Brasileira. Biblioteca Nacional Digital Brasil. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_03&pesq=BaptistaCepellos&pasta=ano19. Acesso em: 20 out. 2015.

NÓBREGA, Melo. Batista Cepelos. Rio de Janeiro: Editora Casa Mandarino, 1937.

THIOLLIER, René. Batista Cepelos. In: ______. Episódios de minha vida. São Paulo: Editôra Anhembi Limitada, 1956.