Título: A sedução do sujeito ativo das narrativas
sobre leitores infantis
De uma dúvida
surgida a partir da leitura de narrativas infantis, adveio um interesse
específico que procuro sintetizar na presente análise. A
dúvida diz respeito à distinção entre o sujeito
privilegiado pela narrativa e o protagonista da mesma, distinção
prevista pela teoria semiótica. Esta análise comparativa
pretende ser um levantamento dos percursos narrativos dos sujeitos em
duas narrativas infantis e a discussão das leituras temáticas
possíveis, bem como a discussão da noção de
sujeito implícita em cada uma à luz dessa teoria.
Embora saiba das várias interpretações possíveis
e já realizadas dos textos analisados, esta terá uma abordagem
imanentista, que considera apenas os textos analisados e que permitirá
uma maior fixação nos objetivos aqui expostos.
A primeira narrativa, de Francisco Marques, um famoso contador de histórias,
leva o título de O tucano e o coelho:
O tucano pousou no galho amigo do velho jatobá. O tucano trazia uma goiaba presa no seu longo bico. O tucano estava pronto para comer a deliciosa fruta, quando, de repente, apareceu aquele cujo nome rima com... bedelho.
- Querido tucano! Há quanto tempo! Sempre vistoso, que beleza! Já fiquei sabendo que o senhor está na escola de canto dos professores Uirapuru e Tangará. Maravilha! Gostaria muito de ouvir você cantar!
O coelho foi dizendo a cantar e levantando as orelhas e arregalando os olhos. O tucano, bem, o tucano abriu o bico e destampou a cantoria. É, isso mesmo, abriu o bico. A goiaba tchigudum! Alguns segundos depois... Alguns segundos depois, escuta só a cantoria do coelho:
- Sete e sete são catorze, com mais sete, vinte e um. (hmmm) Hoje não errei uma! Foram sete tucanos e sete goiabas.
Boa goiabada, eh, quer dizer, boa pescaria! Pouca história e muitas goiabas, ou melhor, muitas mensagens. Eu, por exemplo, conversando com a laranja, pesquei três. Primeira: quem escuta muito elogio perde o rumo do navio. Segunda: hora de comer, comer. Hora de cantar, cantar. Terceira: será que o coelho também está freqüentando alguma escola de canto? Pouca história e muito desafio! Vamos puxar a prosa e pescar outras goiabas?
Dois sujeitos
podem ser identificados nessa narrativa, o tucano e o coelho, e um objeto-valor,
a goiaba. O tucano, a priori em conjunção com o objeto,
é modalizado pelo segundo, que usa da manipulação
para alcançar seu objetivo.
Ao partir do senso comum, o leitor pode ser levado a deduzir, num primeiro
momento, que o tucano é o protagonista desta narrativa. Tal dedução
não é infundada, uma vez que o leitor de histórias
infantis tradicionais está acostumado a processar leituras em que
o sujeito central é um sujeito ingênuo e bonzinho, o qual
sempre luta contra a esperteza e maldade de um anti-sujeito, o vilão.
As narrativas sempre estiveram impregnadas de um caráter moralizador
e, não raro, têm servido de primeiro material para a alfabetização
de crianças em várias culturas. RICHTER & MERKEL fazem
referência a essa característica dos textos infantis:
Os textos oferecidos ao público mirim, porque compromissados com a educação da infância, são veículos de manipulação da mesma ao favorecerem padrões de comportamento exemplares. (RICHTER & MERKEL, 1978, p. 7)
Não
é à toa que inúmeras histórias apresentam
uma moral no término do texto. Mais do que retomá-lo, ela
funciona como direcionamento interpretativo da história, servindo,
muitas vezes, como exemplo e ensinando por meio de formas de "descontração".
O protagonista para a semiótica é o ator do nível
discursivo que centraliza as relações com outros personagens.
Já o sujeito, para a mesma teoria, é aquele que é
modalizado pelo /querer/, pelo /dever/, pelo /poder/ ou pelo /saber/.
A análise, então, parte da relação entre os
sujeitos para estabelecer qual deles seria o privilegiado pela narrativa
e qual seria o protagonista no discurso.
Sabe-se que o texto deve ser analisado em seu todo, uma vez que as primeiras
impressões são suscetíveis de variação
no decorrer da leitura. Sendo assim, partindo dessa informação,
pode-se afirmar que o coelho é o sujeito privilegiado na narrativa
citada devido a sua competência argumentativa e a realização
da performance no decorrer da narrativa.
O coelho, como fica implícito, está num processo de continuidade,
pois o tucano nesta narrativa já é o sétimo a cair
em sua armadilha, como ele canta no fim dessa história. Tal observação
corrobora para a visão do coelho como destinador na narrativa.
Note-se ainda a manipulação que o coelho exerce sobre o
tucano ao exaltar suas qualidades, fazendo-o abrir seu bico e soltar a
goiaba da qual o esperto coelho toma posse. Ele usa da sedução,
nesse momento, um tipo de manipulação na qual o coelho usa
da imagem positiva que sua bajulação provoca, para que o
tucano "feche o acordo" com ele. O coelho /sabe/ da competência
do sujeito manipulado para cantar; a informação pode ser
percebida na sua fala: "Já fiquei sabendo que o senhor está
na escola dos professores Uirapuru e Tangará".
Neste caso, cabia ao tucano o /querer/ fazer para que a manipulação
rendesse frutos, ou melhor, o fruto que o coelho almejava. A aquisição
é concretizada facilmente, após o elogio das qualidades
do tucano. Ele "abriu o bico e destampou a cantoria". No nível
fundamental, a categoria semântica presente na história seria
a oposição malandragem vs ingenuidade e, nesse caso, a malandragem
teria um valor positivo, sendo eufórico e a ingenuidade, valor
negativo, sendo disfórico.
A fala do narrador, ao final do texto, comprova a posição
do coelho como sujeito privilegiado no percurso da narrativa. O narrador
faz uma crítica à desatenção do tucano que
"perde o rumo do navio" e à esperteza do coelho que faz
"boa pescaria", criando, assim, uma "moral" implícita
para a história (até podemos imaginar a feição
decepcionada do tucano e o coelho saltitante com sua suculenta goiaba!).
Com tal análise, não restam dúvidas de que o coelho
é o sujeito privilegiado pela narrativa, o que também coincide
com o sujeito mais ativo, ou seja, ele é um sujeito atualizado,
pois ele /quer/, /sabe/ e /pode/ transformar a disjunção
em conjunção. Já o tucano é um sujeito potencial
com um papel predominantemente passivo; ele é modalizado pelo /aderir/
e pelo /crer/, sendo seu único desejo /querer/ cantar.
Passemos à segunda narrativa a ser analisada neste artigo: Chapeuzinho
Vermelho na versão de Perrault, que faz parte da tradição
cultural brasileira. Aqui, as relações entre os sujeitos
são mais complexas do que em O tucano e o coelho, o que
exige um olhar mais crítico.
Essa narrativa começa com a atribuição de uma tarefa
à personagem Chapeuzinho Vermelho por sua mãe: levar um
bolo e um pote de manteiga para sua avó. Desta tarefa dependerá
a manutenção da imagem positiva de boa menina.
A atenção será mantida na relação entre
os sujeitos lobo e Chapeuzinho, porque é nessa relação
que se concentram as principais ações da narrativa. A escolha
não é aleatória, mas parte da percepção
de que são os trechos de que mais se lembram seus leitores após
uma leitura, o que também nos interessa nesse estudo.
A primeira manipulação de sedução é
exercida pelo lobo no encontro com Chapeuzinho na floresta com a proposta
de seguir por caminhos distintos para saber quem chegaria primeiro.
O lobo adquire o /saber/ sobre a localização da casa da
avó de Chapeuzinho e ele /sabe/ do gosto pelo desafio, comum às
crianças, além da ingenuidade da menina que segue "catando
avelãs e correndo atrás das borboletas" no seu caminho.
A própria Chapeuzinho Vermelho fornece o /saber/:
- Ela mora depois do moinho que o senhor está vendo ali, na primeira casa da aldeia. (PERRAULT, 1997, s/p).
Neste ínterim,
o lobo tem tempo de saciar parte de sua fome comendo a avó e de
se disfarçar para esperar a cobiçada Chapeuzinho Vermelho.
Tudo indica que esse tempo é importante na narrativa, pois o lobo
é um sujeito dominado pela paixão semiótica. Ele
realmente não podia comer a Chapeuzinho Vermelho na floresta pela
presença dos lenhadores, mas a espera também tem a importância
de um processo de conquista, o qual torna o lobo característico
na narrativa e ressalta sua maldade e astúcia na busca do seu objeto.
O lobo é um sujeito atualizado que se mantém ativo em todas
as relações com os outros sujeitos. Ele /quer/, /sabe/ e
/pode/ entrar em conjunção com seu objeto, Chapeuzinho Vermelho.
O papel actancial desempenhado pelo lobo, aqui, é o de destinador
manipulador ao estabelecer situações para sua performance
na narrativa.
Chapeuzinho Vermelho, por outro lado, é sujeito virtual: ela /deve/
levar a encomenda da mãe para manter sua imagem positiva, que está
em jogo, mas não /pode/ cumprir o contrato fechado com a mãe,
porque o lobo se apresenta como obstáculo no seu caminho. Ela também
ocupa a posição de objeto do sujeito lobo, como foi lembrado
acima. Com base em BARROS (1994), pode-se esquematizar dois programas
narrativos:
F(não
cumprir a tarefa) [S1 (Chapeuzinho Vermelho) > S2 (avó) C Ov
(bolo e manteiga)]
F(comer Chapeuzinho) [S1 (lobo) > S2 (lobo) C Ov (Chapeuzinho Vermelho)]
F = função
> =transformação
S1 = sujeito do fazer
S2 = sujeito do estado
C = conjunção
Ov = objeto-valor
Assim, é possível afirmar que Chapeuzinho centraliza as
relações na narrativa que leva seu nome e gera a moral da
história dirigida às moças, "sobretudo as mais
bonitinhas", alertando-as para o perigo em escutar estranhos como
o lobo que são "criaturas maldosas".
No entanto, na versão de Perrault, é o lobo que termina
o texto como sujeito realizado ao entrar em conjunção com
seu objeto de desejo. O autor termina a narrativa nesse ponto: o lobo
come Chapeuzinho Vermelho. Sendo assim, volta a questão: Chapeuzinho
Vermelho detém a posição de heroína, conceito
profundamente ligado ao de protagonista, mas ela é o sujeito privilegiado
da narrativa?
Pelo que indica a análise feita, o lobo, mantém-se ativo
na maior parte da narrativa e recebe a sanção positiva,
ao contrário de Chapeuzinho que é manipulada em todas as
ações e termina na barriga do sujeito manipulador.
Na dimensão cognitiva, temos que o coelho e o lobo representam
os sujeitos manipuladores nas narrativas concentrando as características
de "vilões", ou seja, são malvados, espertos,
astutos e enganadores e são a eles reservadas as sanções
positivas ao fim de cada narrativa.
A relação entre caçador e caça é explorada
nos dois textos e ajuda na identificação da manipulação
exercida entre o destinador e o destinatário. Pode-se observar
que as características de ferocidade próprias de alguns
animais são aproveitadas nessas narrativas. O valor atribuído
ao lobo é justamente o usado na narrativa, ou seja, temos a concepção
de lobo como animal feroz e, por natureza, mau, mas em O tucano e o
coelho, não há referência a esse aspecto; o coelho
é um animal indefeso na natureza, apesar da astúcia que
apresenta na narrativa. Tal comportamento pode ser surpreendente e atraente
para os leitores dessas histórias.
O tucano e Chapeuzinho Vermelho são vítimas do engodo de
seus manipuladores e representam os "mocinhos" das histórias
infantis terminando com a disjunção dos seus objetos-valores.
Entre os dois últimos sujeitos, é necessário estabelecer
uma diferença. O tucano não tem voz na sua relação
com o coelho, sua única ação foi abrir o bico para
cantar, já Chapeuzinho Vermelho está em nível mais
alto: ela tenta manter a conjunção de boa menina para a
mãe e ainda direciona parte dos acontecimentos finais, pois é
ela quem lança as perguntas ao lobo.
Mas onde estariam os textos com modelos exemplares de comportamento, quando
os sujeitos ativos representam justamente o mal? Que conceito de criança
estará implícito nessas narrativas?
O enunciatário da primeira história pode ser uma criança
ativa que entra em conjunção com seu objetivo através
de estratégias inteligentes. Percebe-se que, nesse texto, não
há uma concepção de maldade ligada às atitudes
do coelho, mas há um desprestígio da ingenuidade do tucano,
o que confirma a sugestão de ouvinte ativo na relação
com o mundo real. Pode-se afirmar, então, que o comportamento exemplar,
nesse caso, está ligado a uma maior atividade do leitor em suas
próprias ações.
No segundo texto, a protagonista, com quem o ouvinte/leitor (criança)
deverá se identificar é um sujeito potencialmente ativo,
mas efetivamente passivo. Neste caso, a criança possivelmente almeja
a posição do lobo, por sua esperteza e conseqüente
sanção positiva no final, mesmo que a moral seja remetida
as moças bonitinhas, pois aí também se percebe o
poder do lobo sobre suas vítimas.
Vemos por aí muitas crianças,
Mocinhas bonitas alegres e graciosas,
Que no meio de suas andanças
Dão ouvidos a criaturas maldosas.
Não é, portanto, de espantar
Que o lobo as venha devorar. [grifo meu] (PERRAULT, 1997, s/p).
Como exemplo
de narrativas com esse perfil pode-se citar Branca de Neve, Cinderela,
As fadas, A Bela e a Fera e outros em que, a idéia
de comportamento exemplar está implícita. De outro lado,
temos O gato de Botas que se assemelha à narrativa de O
tucano e o coelho em que o sujeito manipulador recebe a sanção
positiva.
As narrativas, que espelham uma cultura, refletem também as relações
estabelecidas entre os sujeitos na realidade e o interesse presente em
sua produção. O interesse parece não ser o de responder
qual seria o gosto das crianças, mas qual a ideologia a ser imposta
a elas.
A sedução do sujeito ativo sobre a criança é
perfeitamente condizente com o contexto de crescentes inovações
tecnológicas da modernidade, que exigem delas posições
cada vez mais atuantes na sua relação com o mundo. Os sedutores
e sofisticados video games, os modernos programas de computadores
são alguns dos exemplos de situações que colocam
a criança como altamente capaz e próxima do mundo adulto,
ao contrário das simples e didáticas narrativas infantis.
Uma tradição pode estar sendo rompida: a da concepção
de criança como ente puro e incapaz face à dominação
de um outro manipulador. A atração é, então,
tentada pela sedução de narrativas incrementadas e que seja
compatível à nova personalidade das crianças. Vale
lembrar que o conto de Perrault é do século XVII, já
a narrativa de Francisco Marques é recente, apesar da intertextualidade
com outros textos anteriores, o que pode ser visto como sintoma de mudança.
É inegável a importância e o valor do fantástico
na vida das crianças de ontem e de hoje, e também a aprendizagem
de associações convencionais que dirigem as expectativas
ao se ouvirem histórias, como o papel esperado de um lobo, de um
leão, de uma raposa, de um príncipe. Daí a necessidade
em criar versões cada vez mais atualizadas.
Finalmente, pode-se afirmar que as narrativas infantis, como toda produção
literária, são dinâmicas e fluidas. É impossível
estabelecer critérios para a produção desses textos,
pois além da variação dependente do autor, há
aspectos sociais e temporais envolvidos que sempre fugirão ao pré-estabelecido.
Essa conclusão só confirma o caráter aberto dos contos
de fadas que permitem sempre outras adaptações e até
transcriações do tema original.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARROS, Diana
Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Paulo:
Ática, 1994.
MARQUES, Francisco. Histórias Gudorias de Gurrunforias de Maracutorias
Xiringabutorias. Leituras silenciosas com barulhos de brinquedos.
CD n.o PC0009. São Paulo: Palavra Cantada, 1999.
MATTE, Ana Cristina Fricke. A escoliose de Branca de Neve in: Revista
do GEL. Araraquara - SP, v.1, n.1, p.13-34, 2004.
PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. Ilustração
Zdenka Krejcova. Trad. Monica Stahel e Rosemary Costhek Abílio.
São Paulo: Martins Fontes, 1997.
RICHTER, Dieter & MERKEL, Johannes. "A função da
fantasia dos contos de fadas na educação burguesa".
Boletim Informativo da Fundação Nacional do Livro Infantil
e Juvenil. Rio de Janeiro, 10 (41): 6-20, jan./mar., 1978.