O assunto que motiva a realização deste ensaio é um muito
interessante na área dos estudos sobre a arte: o reflexo da configuração
social e histórica de uma época ou de um lugar na produção
literária. Tratarei de um aspecto na obra do poeta barroco Gregório
de Matos que gera dúvidas em alguns leitores, que é a postura
do artista em relação aos negros e principalmente às
mulatas, em oposição ao modo como ele trata outras personagens
de sua obra, neste caso, a mulher branca, de origem ou traços europeus.
A partir da leitura de alguns poemas e de discussões em sala de aula,
pareceu-me que Gregório tinha uma visão extremamente racista
dos negros, insultando-os e colocando-os em uma posição inferior
à dele em vários de seus textos, que foram construídos
com um tom de desprezo e repúdio. Apesar desse racismo declarado, há
vários poemas em sua obra que têm por tema a mulata, nos quais
esta é descrita como alguém que tenta o poeta. Nesses poemas
percebe-se uma tensão sexual constante, um erotismo exacerbado e a
colocação da figura feminina como objeto de desejo.
Porém, em outros textos de Gregório, que têm desta vez
a mulher branca como tema, nota-se uma diferença brusca dos poemas
sobre mulatas em diversos aspectos, desde o tom do texto até a escolha
do vocabulário. O poeta descreve esse segundo tipo de musa utilizando
imagens religiosas, linguagem mais erudita, entre outros recursos, que acabam
por criar uma impressão diferente da donzela, uma impressão
de beleza superior e intangível.
Tomando as afirmações acima como fatos, interessou-me pesquisar
os motivos para esta complexa situação. Gregório valoriza
e enaltece os dotes naturais da mulata, que faz parte de uma classe detestada
por ele, enquanto a mulher branca ocupa outra posição, menos
carnal. O que pretendo então com este ensaio é verificar como
a sociedade da época de Gregório de Matos se colocava a respeito
disso, ou seja, como eram as relações sociais entre a classe
dominante, branca, e a dominada, composta por escravos e índios, e
se havia essa dualidade entre o racismo e o interesse físico, para
então analisar este comportamento de Gregório como algo natural
dentro da sua sociedade ou não.
Para que conclusões não sejam feitas a partir somente de divagações,
que podem ser interessantes mas nem sempre confiáveis, alguns conceitos
de preconceito e racismo serão expostos, já que falamos aqui
sobre o racismo na obra do poeta barroco. Em seguida, discutirei o contexto
histórico e a situação social da época em que
viveu Gregório, principalmente a relação existente entre
as classes sociais no Brasil. A etapa final será localizar o artista
dentro dessa sociedade e demonstrar em alguns de seus poemas as características
apontadas aqui e durante o resto do texto, chegando a uma conclusão
que, espero eu, confirme o que imaginei a princípio: que Gregório
de Matos reflete em sua obra uma tradição racista do meio em
que vive, e que este racismo não deixa de se manifestar nas relações
carnais, pois toma-se o negro apenas como objeto. Mãos à obra!
A parte das definições (racismo)
Racismo é
a teoria que, pressupondo a existência de diferentes raças entre
as pessoas, defende a superioridade de uma em relação às
outras. Por raça entende-se um grupo de indivíduos que é
definido como diferente dos outros grupos por características físicas
inatas e imutáveis. Estas são relacionadas a habilidades ou
atributos morais, intelectuais, entre outros (VAN DEN BERGHE, 1978, p. 9),
e portanto definiriam qual raça é melhor ou superior.
Este conceito de diferentes raças humanas, baseado em diferenças
biológicas reais ou não, é insustentável e já
foi derrubado pela ciência atual. Há sim diferenças entre
os diferentes grupos humanos, mas estas são causadas por diversidades
culturais e/ou geográficas, e não biológicas (BERND,
1994, p. 11).
A idéia de que há raças superiores e inferiores serve,
além de outros objetivos, para justificar atitudes cruéis de
um grupo sobre outro. Um exemplo são as atrocidades dos espanhóis
e portugueses contra os povos descobertos, pois justificavam suas
atitudes no fato de os índios fazerem parte de uma raça inferior.
A partir disso percebe-se como é estruturado o racismo: estigmatiza-se
o grupo que se quer discriminar e depois tira-se proveito dessa estigmatização.
A escravidão dos negros é outro caso de uso da ideologia racista,
pois ela se utiliza da suposta inferioridade natural deste grupo em relação
ao branco(BERND, 1994, p. 16-17). Logo, a dominação e escravização
tornam-se aceitáveis, pois o branco, fazendo parte de uma raça
melhor, se vê no direito de praticar crueldades contra os membros da
raça inferior. A origem do racismo não é científica,
[...]. è política, social ou econômica, sendo usada pelos
indivíduos para justificar seus interesses, exploração
econômica, ou como pretexto para a dominação política
(CARNEIRO, 1983, p. 17).
O que intenciono com essa discussão é construir bases para afirmar
que já havia no Brasil um comportamento racista desde o início
de sua colonização. As barbáries cometidas contra os
índios, a escravidão de negros e a marginalização
destes na sociedade têm todo um discurso de racismo e preconceito como
desculpa para se realizar. Essa visão perdurou durante os séculos
seguintes ao descobrimento até a atualidade. Parece válido neste
ponto acrescentar também que "a discriminação racial
é apenas uma das facetas de um problema mais amplo - a discriminação
social" (COMAS, 1970, p. 18). Logo, toda a explanação sobre
racismo torna-se pertinente, pois o problema mesmo da discriminação
social e suas conseqüências na produção artística
de uma época é o que motiva a realização deste
texto.
Com esse tema discutido e, espero, esclarecido, passo agora à situação
histórica e social em que se encontrava o Brasil na colonização,
mais especificamente, no século XVII.
A parte do contexto histórico
O século
XVII no Brasil tem como característica principal a ocupação
e colonização, iniciadas no século anterior. O país
havia se tornado um empreendimento comercial importante para Portugal, já
que estava produzindo mais riquezas e gerando mais lucros que a Índia.
Com isso, aumentou-se o interesse da metrópole pelo Brasil, e a vida
na colônia começou a organizar-se em torno dos engenhos de açúcar
concentrados na Zona da Mata nordestina. Salvador transformou-se no centro
econômico, político e cultural do Brasil (NETO, p. 16).
A escravidão no Brasil já era bastante forte no século
XVII. Isso foi um fator muito significativo para a formação
da sociedade e da cultura brasileira. Segundo FREYRE (2002, p.364), os
escravos vindos das áreas de cultura negra mais adiantada foram um
elemento ativo, criador, e quase que se pode acrescentar nobre na colonização
do Brasil; degradados apenas pela sua condição de escravos.
Importante é comentar também que negros e colonizadores não
eram grupos isolados. Havia, claro, a diferença social esperada entre
escravos e portugueses, dominado e dominante, se é que se pode afirmar
que os negros formavam uma classe, visto que eram tratados como mercadoria.
No entanto, apesar da relação de controle e autoritarismo entre
escravos e senhores, estes grupos mantinham estreitas ligações.
Uma delas era o ato sexual. Muitos meninos filhos de senhores de engenho,
por exemplo, iniciavam sua vida sexual e tinham grande parte dela com escravas
de seu pai. Esse tipo de relação e a ideologia de dominação
em vários sentidos era algo corrente no Brasil colonial.
A parte da biografia
Não é minha intenção fazer desta parte uma biografia completa de Gregório de Matos. Além de haver poucos dados seguros a respeito de sua vida, detalhes sobre o que aconteceu nesta são de pouca relevância para o presente estudo. É conveniente comentar que ele nasceu no ano de 1623 ou 1633, em Salvador, e morreu em Recife, no ano de 1695 ou 1696. O que julgo mais importante porém são as origens dele. Gregório vem de uma família abastada, ou seja, ele pertencia à classe mais alta de sua sociedade. Considero somente este ponto pertinente não por confiar totalmente que a biografia de um artista possa explicar sua obra, mas porque creio que neste caso, o lugar que ocupava Gregório na sociedade é relevante. Para comprovar isso basta imaginar qual seria a postura de um mulato escrevendo poemas, ou de um índio, e se essa postura seria diferente da que Gregório tem.
A parte cheia de poemas
Vamos agora à análise de alguns poemas de Gregório de Matos que demonstram os comportamentos que tento analisar neste trabalho.
TORNA A DEFINIR O POETA OS MAOS MODOS DE OBRAR NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.
Que falta nesta
cidade?.....................Verdade
Que mais por sua desonra.................Honra
Falta mais que se lhe ponha..............Vergonha.
O demo a viver
se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
[...]
Quais são os seus doces objetos?..............Pretos
Tem outros bens mais maciços?................Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?..............Mulatos.
Dou ao demo os
insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
[...]
O trecho acima faz parte de um poema em que Gregório ataca vários segmentos da sociedade baiana, e evidencia a postura de repúdio do artista quando o assunto é a classe dos negros e mulatos. Gregório usa um tipo de construção na primeira estrofe e outro tipo na segunda estrofe, recuperando no final da segunda estrofe as palavras finais de cada verso da primeira. Nota-se também na última parte do trecho que ele dirige sua crítica não apenas aos negros, mas aos que os estimam também. Um outro exemplo:
A AMAZIA DÊSTE
SUJEITO QUE FIADA NO SEU RESPEITO SE FAZIA SOBERBA, E DESAVERGONHADA
[...]
Entram na tua casa a seus contratos
Frades, Sargentos, Pajens, e Mulatos
Porque é tua vileza tão notória
Que entre os homens não achas mais que escória:
[...]
Espero que, com isso, tenha ficado claro que Gregório de Matos era
racista e que isso está explícito em seus trabalhos.
Vejamos agora como Gregório lida com a figura da mulata.
INDO O POETA PASSEAR PELA ILHA DA CAJAIBA, ENCONTROU LAVANDO ROUPA A MULATA ANNICA E LHE FEZ ESTE ROMANCE.
Achei Anica na
fonte
lavando sobre uma pedra
mais corrente, que a mesma água,
mais limpa, que a fonte mesma.
[...]
Conchavamos, que eu voltasse
na segunda quarta-feira,
que fosse à costa da Ilha,
e não pusesse o pé em terra,
Que ela viria buscar-me
com segredo, e diligência,
para na primeira noite
lhe dar a sacudidela.
Depois de feito o conchavo
passei o dia com ela,
eu deitado a uma sombra,
ela batendo na pedra.
Tanto deu, tanto bateu
co'a barriga, e co'as cadeiras,
que me deu a anca fendida
mil tentações de fodê-la.
[...]
É muito interessante analisar este poema, pois ele demonstra claramente (pelo menos para mim) o que a mulata representava para o poeta. Esta discussão porém não será feita agora. Parece melhor mostrar antes um outro texto de Gregório, para enfim confrontar os poemas e as diferentes posturas do autor e - torço eu - chegar a uma conclusão adequada.
PONDERA AGORA COM MAIS ATTENÇÃO A FORMOSURA DE D. ÂNGELA.
Não vi
em minha vida a formosura,
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.
Ontem a vi por
minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.
Me matem (disse
então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me.
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me.
Olhos meus (disse
então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me,
Antes, olhos, ceguei, do que eu perder-me.
São claras as diferenças entre os dois poemas. No que fala de
Anica, há diversos sinais que a colocam apenas como objeto sexual do
autor, enquanto no texto sobre a formosura de D. Ângela, esta é
vista como um ser perfeito, que provoca as reflexões amorosas mais
profundas no poeta. Há disparidades também na linguagem utilizada
na construção dos poemas. Há uso constante de expressões
populares no primeiro, e as imagens criadas servem para enfatizar o interesse
carnal pela mulata. Já no segundo, percebe-se um vocabulário
mais erudito, e o trabalho com imagens menos carnais e mais líricas
ou elevadas, como em " De uma Mulher, que em Anjo se mentia, / De um
Sol, que se trajava em criatura", que ajudam a dar um tom de distanciamento
maior entre o poeta e sua amada.
A partir destas discrepâncias textuais, pode-se passar para uma análise
das motivações de tudo isso. Creio que posso concluir que Gregório
de Matos e a sociedade brasileira do século XVI, da qual faz parte
o poeta, era racista, e tinha o negro, o mulato, como alguém inferior,
ou até como algo. Há também esta visão da mulata
como simples objeto de desejo carnal, tomando-a apenas uma coisa, porém
coisa cobiçada, mesmo que no sentido físico somente, e não
com o lirismo com que é tratada a personagem branca. Tal comportamento,
visto tanto na obra do poeta barroco quanto nas próprias relações
sociais, pode ser encarado como uma reafirmação do discurso
racista, e não como uma contradição a ele, pois a coisificação
da mulata ou a valorização unicamente de seus atributos físicos
não deixa de ser uma atitude racista.
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Referências Bibliográficas:
BERND, Zilá. Racismo e anti-racismo. São Paulo: Moderna, 1994.
CARNEITO, Preconceito racial no Brasil Colônia: os cristãos-novos. São Paulo: Brasiliense, 1983.
COMAS, Juan. "Os Mitos Raciais", in Raça e Ciência I. São Paulo: Perspectiva, 1970.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. Rio de Janeiro: Record, 2002.
MATOS, Gregório de. Obra Poética. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NETO, Moisés. Literatura Brasileira: do Quinhentismo ao Parnasianismo. www.moisesneto.com.br/quinhentismo.pdf
VAN DEN BERGHE, Pierre L. Race and Racism: A Comparative Perspective. John Wiley and Sons: New York, 1978.
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