Título:
O neobarroco
em Zera a Reza, de Caetano Veloso[1]
Zera a
reza
Caetano Veloso
Vela leva
a seta tesa
Rema na maré
Rima mira a terça certa
E zera a reza
Zera a reza,
meu amor
Canta o pagode do nosso viver
Que a gente pode entre dor e prazer
Pagar pra ver o que pode
E o que não pode ser
A pureza desse amor
Espalha espelhos pelo carnaval
E cada cara e corpo é desigual
Sabe o que é bom e o que é mau
Chão é céu
E é seu e meu
E eu sou quem não morre nunca
Vela leva
a seta tesa
Rema na maré
Rima mira a terça certa
E zera a reza
Primeira
letra do disco Noites do Norte (2000), Zera a reza surge
como mais uma demonstração da arte neobarroca de Caetano
Veloso, artista do seu tempo, do nosso tempo, cujas letras são,
quase sempre, tidas como complicadas e de difícil entendimento,
ou seja, o receptor frui a obra mas encontra dificuldades para entender
a mensagem. Assim, procuramos perceber a oclusão proposital desta
obra de Caetano.
O neobarroco, que segundo Chiampi (1998), é uma reciclagem do barroco
histórico feita nos dias atuais, surge como característica
do "fim das utopias". Severo Sarduy (1979), em seu ensaio O
barroco e o neobarroco, aponta três mecanismos de artificialização
que são a base da teoria neobarroca, a saber: substituição,
troca do objeto-foco por um outro que faz referência àquele;
proliferação, a multiplicação de metonímias
do objeto-foco através da repetição de termos e mesmo
seqüências de significantes; e condensação,
fusão de dois dos termos de uma cadeia de significantes, de cujo
choque resulta um terceiro termo que resume semanticamente os dois primeiros.
"As palavras da letra são uma brincadeira nada rigorosa com
inversões e espelhamentos" (Veloso, 2003). Esta definição
feita pelo autor refere-se aos quatro primeiros versos da letra, em que
os anagramas vela-leva; seta-tesa; rema-maré; rima-mira; terça-certa;
sera-reza, utilizados aqui como ludismo, desviam a atenção
do receptor para o texto sob a letra.
Em Zera a reza identificamos ainda a união entre "opostos"
pois, citando a reza, momento sagrado em que o ser se comunica com o divino,
e o pagode, momento de profanação do corpo, Caetano Veloso
parodia veladamente com a letra Deus e o Diabo (1989), de sua autoria,
em que o verso "O carnaval é a invenção do Diabo
/ que Deus abençoou" fortalece a correlação
entre profano e sagrado, procedimento típico do texto barroco e
aspecto recorrente na produção deste autor.
Já no início da canção propriamente dita,
nos versos: "Zera a reza meu amor / canta o pagode do nosso viver"
há um convite para que o receptor, evocado através da expressão
"meu amor", largue tudo, ou melhor, a reza, e saia para aproveitar
a vida, que está substituída, no texto, por vela, que está
passando; portanto, urge curtir o momento de confraternização
e liberdade. Há aqui a intertextualidade com os versos da canção
Deixa sangrar (1989), também de Caetano: "Deixa o mar
ferver, deixa o sol despencar / deixa o coração bater, se
despedaçar / chora depois mas agora deixa sangrar, deixa o carnaval
passar", ou seja, é preciso zerar a reza, livrar-se das convenções
e extravasar os sentimentos e as emoções.
Contemporaneamente, o carnaval é uma festa de prazer feita, em
grande parte, por pessoas que passam a maior parte do ano em meio a dor,
pela marginalidade social imposta. É portanto "entre dor e
prazer" que acontece o pagode, o samba, o carnaval. O carnaval é
a maior expressão dessa dor e desse prazer citados pelo texto,
é preciso aproveitar, mesmo que seja preciso "pagar pra ver",
isto é, os componentes das escolas de samba, e mesmo os "foliões"
dos blocos carnavalescos, economizam durante o ano todo para poder brincar
o carnaval. É importante percebermos a crítica feita pelo
eu-lírico à "turistização" do carnaval
institucionalizado do Rio de Janeiro, tanto quanto do carnaval de Salvador.
Tal crítica já havia sido feita por Caetano, em 1977, na
canção Um frevo novo (1989), a qual diz: "todo
mundo na praça / manda a gente sem graça pro salão",
portanto, a festa paga restringe e divide, o que não deve ser próprio
do carnaval; este, para o eu-lírico, deve ser feito na praça,
na rua e para todos, pois o folião é um participante essencial
para a existência do carnaval.
Segundo Bakhtin (1999), em seus estudos sobre o contexto de Rabelais,
"os bufões não eram atores que desempenhavam seu papel
no palco. Pelo contrário, eles continuavam sendo bufões
e bobos em todas as circunstâncias da vida. Situavam-se na fronteira
entre a vida e a arte". Bakhtin (1999) observa ainda que os atores
assistiam às funções do cerimonial sério,
para parodiá-los. O carnaval ignora toda distinção
entre atores e expectadores, pois os expectadores vivem o carnaval.
Obviamente, as representações carnavalescas atuais são
outras, mas ainda percebe-se esta essência do carnaval como uma
"segunda vida", principalmente para aqueles que trabalham durante
o ano preparando a festa, apesar da turistização, e de se
fazer hoje um carnaval com palco (Marquês de Sapucaí, Rio
de Janeiro; entre outros). O folião é, ou deve ser, expectador,
mas também ator, tendo o "chão", a "praça"
e a avenida como palco para o espetáculo, eis uma das intenções
do eu-lírico de Zera a reza, chamar a atenção
de seu destinatário para a "segunda vida", uma vida livre
das convenções.
Já a expressão "o que pode e o que não pode
ser" nos remete a canção-marchinha carnavalesca de
João Roberto Kelly, Cabeleira do Zezé ("Olha
a cabeleira do Zezé / será que ele é / será
que ele é). No carnaval, não há a preocupação
com a verdade, pois é a ilusão, a possibilidade de ser o
que não se pode ser na vida ordinária, uma característica
fundamental dessa festa que, para Bakhtin (1999) "convertia-se na
forma de que se revestia a segunda vida do povo, o qual penetrava temporariamente
no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância".
No carnaval, permite-se ser o que quiser, há liberação
de sentimentos e desejos reprimidos pela ética social e, principalmente,
religiosa, daí os versos "A gente se embala, se embola, se
embola / só pára na porta de igreja", da canção
Sangue, suor e cerveja (1989), de Caetano, mas que parecem
ressoar na canção Zera a reza, apontando para a repressão
religiosa imposta sobre o indivíduo.
O verso "Zera a reza meu amor" inicia a discussão feita
pelo eu-lírico sobre a devoção religiosa do receptor
pelo Deus das religiões instituídas. O eu-lírico
sugere que o verdadeiro Deus não é este para quem o receptor
presta devoção, visto que este Senhor discrimina, separando
católicos, protestantes, judeus etc. O samba seria, portanto, um
deus mais original devido à união proporcionada por ele
entre seus "fiéis", permitindo a estes a felicidade,
a libertação dos dogmas, dos sectarismos e preconceitos.
O verso "E eu sou o que não morre nunca", que parodia
com outro, "o samba não vai morrer", da canção
Desde que o samba é samba (1993), que aliás tem outro
verso importante para nossa análise "O samba é pai
do prazer, o samba é filho da dor", nos atenta para o fato
de que o eu-lírico incorpora o próprio samba, ele é
o samba e se imortaliza como um deus.
Os versos: "A pureza desse amor espalha espelhos pelo carnaval /
e cada cara e corpo é desigual / sabe o que é bom e o que
é mau" apontam para a expectativa dos dias de festa que acompanham
o povo durante o ano todo, haja visto, por exemplo, o trabalho das escolas
de samba para apenas uma noite de apresentação. Os espelhamentos,
quase anagramáticos: Espalha-espelhos e cada-cara retomam a idéia
inicial do jogo como recurso para desviar a atenção do leitor
tal como observa Affonso Ávila (1994), ao tratar do artista barroco.
Ao fazer o jogo de espelhamentos com as palavras do refrão: vela-leva;
seta-tesa; rema-maré; rima-mira; terça-certa; sera-reza,
e ao dizer que "espalha espelhos" Caetano Veloso trabalha criando
um processo de metalinguagem na letra.
O eu-lírico trata do carnaval feito por pessoas que muitas vezes
trabalham simplesmente movidas pela paixão pela festa, ou seja,
é a "pureza desse amor" que "espalha espelhos".
No geral, essas pessoas vivem nas periferias, onde a violência e
o tráfico de drogas imperam devido à marginalidade social.
Esta gente do povo tem, no carnaval, um momento de alegria.
A avenida, no texto substituída por "chão", é
o céu por onde as estrelas, que são os passistas, desfilam
e brilham, no entanto, não podemos esquecer do turismo relacionado
ao desfile, já citado acima. Há uma citação
de um verso da letra Gente (1977), do mesmo autor, em que diz que
"Gente é pra brilhar". O carnaval permite esta elevação
do povo da periferia ao céu, às estrelas, e Caetano Veloso
registra isto como um verdadeiro artista consciente da cultura popular.
Todos se reúnem, não importam as diferenças. O essencial
é festejar a vida com toda a expressividade que o corpo permite.
O samba, na letra confundido, ou incorporado pelo eu-lírico, chama
atenção ainda para o fato que já é quase terça-feira,
a "terça-feira gorda", é o último dia da
festa, a única certeza é que o carnaval está terminando,
mesmo que o samba continue exibindo "a beleza desse amor", e
é preciso aproveitar, "chora depois, mas agora deixa sangrar"
(Deixa sangrar, 1989). Assim, o pagode e o samba, não são
apenas ritmos ou estilos de dança: transcendendo a tudo isso, são
o "zera reza", que permitem o instante zero do sagrado.
A proliferação dos significantes: "pagode do nosso
viver"; "pode entre dor e prazer"; "vê o que
pode e o que não pode ser", "espelho", "conhece
o bom e o mau", "que não morre nunca", resulta no
significado SAMBA, que está substituído no título
por "zera a reza". Por isso é preciso fazer uma leitura
em filigranas das especificidades do texto, para chegar-se a novas (e
implícitas) significações da letra. Será através
desta leitura em filigranas que se perceberá também as relações
intertextuais, com outras letras do mesmo autor ou de outros autores,
produzidas ao longo do texto, que auxiliam na proliferação
de significações dificultando um entendimento do conteúdo
numa primeira leitura. A intertextualidade, seja para gerar novas significações,
no hipertexto, seja para reler o hipotexto, na produção
neobarroca, serve como desperdício de significantes, daí
Sarduy (1979) afirma que o texto barroco ou neobarroco é marcado
pelo erotismo.
Não é por acaso que Zera a reza abre o disco Noites
do Norte (2000), um disco que, inspirado pelo pensamento do abolicionista
Joaquim Nabuco, tem fortemente impresso nas letras a questão da
escravidão. Portanto inicia-lo falando do samba, dança de
origem africana, herança dos negros trazidos como escravos, e do
carnaval, festa popular que, no Brasil, incorporou o samba, além
do frevo e hoje do axé, como ritmos matrizes. Todavia, Caetano
Veloso faz essa homenagem de forma velada, através do jogo significante/significado,
das proliferações e substituições que caracterizam
a obra neobarroca.
Referências
bibliográficas:
ÁVILA,
Affonso. O lúdico e as projeções do mundo barroco
I. São Paulo: Perspectiva, 1994.
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovit. A cultura popular na Idade Média
e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução
de Yara Frateschi. São Paulo: Hucitec, 1999.
CHIAMPI, Irlemar. Barroco e Modernidade. São Paulo: Perspectiva,
1998.
SARDUY, Severo. O barroco e o neobarroco. In: MORENO, César
Fernández (Org.). América latina em sua literatura. Tradução
de Luiz João Gaio. São Paulo: Perspectiva, 1979.
VELOSO, Caetano. Letra só. FERRAZ, Eucanaã (Org.).
São Paulo: Companhia das letras, 2003.
VELOSO, Caetano. Sobre as letras. FERRAZ, Eucanaã (Org.).
São Paulo: Companhia das letras, 2003.