por Maria
Esther Maciel
1. Lídia
Lídia, quando menina, gostava de se sentar à beira do rio para ver os peixes esquivos. Dia após dia, neles via sempre a mesma vida, o mesmo desassossego, como se, para eles, repetir o movimento fosse uma espécie de estilo. Isso a surpreendia. Por que aos peixes não era dado o fastio? Lídia, que ainda sente por eles um certo fascínio, hoje responderia a isso dizendo que as coisas, por mais repetíveis, contêm, todas elas, um rio - subterrâneo ou de superfície. Ou seria um ritmo? Mas seja o que for, é isso que garante ao mesmo uma dose de imprevisto. Aliás, toda a história de Lídia se resume mais ou menos neste mínimo: por mais que ela busque a ordem dos peixes, algo a desvia. Mas também, sendo filha de Odília, não havia como ser diferente. Sua mãe interferiu em todos seus atos, em todas as suas tentativas de seguir uma via estrita, colocando-a em permanente estado de risco. Por isso oferece a ela apenas um amor oblíquo, desses que só contentam os que são muito carentes e tristes. Ontem, inclusive, quase lhe deu de presente um livro de capa negra e páginas cinza, intitulado: O livro de ouro do suicídio. Mas reteve o gesto, arrependida.
2. Danilo
É incrível como, na iminência da morte, perde-se a vontade de fingir, disse Danilo para Lídia ao reafirmar que não se resignaria à piedade de seus falsos amigos. Ele tinha acabado de receber o diagnóstico fatídico de sua doença e, não sem atropelos, tentava ordenar-se por dentro. Logo ele, que se entregara por inteiro às causas do mundo, tomava-se de um súbito medo, a ponto de sentir pena de si mesmo. Mas foi Lídia que, com seu jeito de lidar com o alheio, demoveu-o do desalento. Convenceu-o a agarrar-se a qualquer coisa de certo. Eu queria ser velha para ter lhe dedicado minha vida inteira, ela um dia sussurrrou-lhe perto do ouvido. E assim foram levando os dias, como se tudo corresse em sossego. Convicto de que cada coisa a seu tempo tem seu tempo, Danilo acabou por aceitar o que viesse, porém com um quê de desconsolo. Não abdicou de suas causas, mesmo as mais ácidas. Mas às vezes se perguntava, no silêncio do quarto, se a conclusão de uma vida não se reduzia, no fundo, à constatação de um fracasso.
3. Catarina
Tudo está claro, mas não é dia, disse Catarina para si mesma na noite em que se deu conta de que o que atravancava sua vida era sua beleza física. Desde muito menina era considerada bonita, o que lhe garantiu certas regalias na família, algumas conquistas no mundo das coisas e muita inveja das amigas, mesmo de algumas mais íntimas. Dos homens sempre recebeu olhares compatíveis com o fascínio que por ela sentiam. E foi exatamente isso que turvou suas tentativas de ser devidamente reconhecida pelas outras qualidades que tinha, como o talento para a música e a poesia. Em um de seus momentos infelizes, tentou desfigurar o próprio rosto com uma lâmina fina, mas reteve a mão, com medo das cicatrizes. Outro dia, pensou em usar óculos, descuidar-se dos vestidos, dos batons e das dietas aflitivas, mas algo a impediu, com força explícita. Como se vê, sua beleza era para si mesma algo ambíguo, seu maior bem e seu castigo. Talvez por isso tenha se tornado tão tímida, tão cheia de pudores e, ao mesmo tempo, tão atrevida nas entrelinhas.
4. Beatriz
Somos sempre incompatíveis com os nossos motivos, Beatriz leu num livro aberto ao acaso. Será que isso quer dizer que todo motivo contradiz, necessariamente, um desejo implícito? - perguntou-se, relendo a frase. Mas logo parou de pensar nisso, por achar que era melhor fugir das palavras escritas para ser livre. Preferia a vida imediata, fora dos livros. Toda a sua história foi feita assim, de atitudes pragmáticas, sem muita filosofia. O dom de esquecer era também uma de suas marcas mais explícitas. Se alguém lhe causava desditas, Beatriz simplesmente apagava a pessoa de sua lista e passava a ignorá-la como se ela nunca tivesse existido. Isso a poupava dos espinhos. Mas não a livrava, necessariamente, das feridas. Quando seu irmão mais velho morreu, por exemplo, nem foi ao enterro, por já tê-lo riscado de seu rol de queridos. Mas desde então passou a ter calafrios sem razão plausível. Já os que caíam em suas graças eram uns felizes: ela os tratava com um fervor sem limites, dava-lhes inclusive o que não possuía. Sua generosidade era, nesse caso, quase um vício.
5. Osório
Nas grandes dores, nas dores assombrosas, morrer é a opção
mais óbvia. Viver, não. Viver passa ser o problema, a maior
prova. Foi o que ocorreu com Xavier, o cachorro que assistiu ao suicídio
do dono. Durante três semanas, ele ganiu todas as noites, como se
revivesse todo o drama por exatos quinze minutos. E durante o dia parecia
estar longe de todos, mesmo quando Maria Alice gritava o seu nome. Sua
alma se decompunha a cada segundo, no absurdo de tudo. Não comia,
não bebia, não se dava conta dos ruídos da rua. E
parecia olhar para os outros da casa como se eles estarem vivos depois
do ocorrido fosse quase um insulto. Nada é nosso, parecia
dizer para a sua própria sombra. Maria Alice o observava em silêncio,
não sem um certo ciúme. Como se aquele cão lhe tivesse
roubado o que ela possuía de mais humano: a culpa. Que amor
é esse dos cães, que não descansa? - ela se perguntava
meio em prantos. Até que, na primeira manhã da quarta semana,
encontrou o cachorro morto debaixo da cama de um dos meninos. Quando o
viu, sentiu um secreto conforto, desses que não se confessa nem
mesmo aos amigos mais íntimos.
*
Maria Esther Maciel é escritora e professora de Teoria da Literatura da UFMG. Autora, entre outros, dos livros: As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz (Experimento, 1995), Vôo transverso (Sette Letras, 1999), A memória das coisas (Lamparina, 2004) e O livro de Zenóbia (Lamparina, 2004). Seu site na Internet: [ www.letras.ufmg.br/esthermaciel ]