MAFUÁ

Revista de Literatura em Meio Digital

ISSN 1806-2555

- ano 6 n.9 2008 –

http://www.mafua.ufsc.br/


 

 

 

 

PAREDES DE TEMPO:

espaço e loucura em Fogo Morto

 de José Lins do Rego

 

 

       

      Por Aline de Paula Nascimento Silva (UEG)

e Débora Sousa Martins (UEG)

Graduandas em Letras

Universidade Estadual de Goiás

deboraesporte@hotmail.com

 

 

RESUMO: O romance Fogo morto, de José Lins do Rego, insere-se na tradição regionalista da literatura brasileira, fazendo parte do ciclo de romances da cana-de-açúcar e, por encerrar esse conjunto de romances, é tomado como uma obra síntese. Considerando o fato de que o regionalismo da década de 30, paradigma em que se encaixa a narrativa de José Lins do Rego, prezava pela valorização do povo brasileiro, a obra revela a inadaptação do sujeito diante da realidade que o cerca, mostrando a decadência do período histórico-social caracterizado pela narrativa e, por extensão, do indivíduo aí inserido. Sob esse aspecto, há uma investigação psicológica dos personagens, revelando que a loucura a que são submetidos, no presente dos fatos narrados, visa expor a decadência individual e coletiva de sujeitos à margem da sociedade e do progresso. Partindo dessa relação, este trabalho procura demonstrar de que modo a articulação entre a construção narrativa do tempo e do espaço representa, estruturalmente, a revelação do desajuste humano às esferas de uma sociedade que, transformando-se, expulsa o indivíduo e o prende ao passado, no espaço presente.

 

PALAVRAS-CHAVE: Regionalismo, romance de 30, espaço, tempo.

 

 

ABSTRACT: The novel Fogo morto, by José Lins do Rego, is inserted in the regionalist tradition of Brazilian literature. It belongs to the cycle of novel of sugar cane and, due to ending this collection of novels, it is considered as a synthesis narrative. As Fogo morto is in the 30’s regionalist, which values the Brazilian people, this novel reveals the inappropriation of the person in the reality which surrounds him, showing the decline of the period characterized historical-socially by narrative and an extension of the person in this moment. Thus, there is a psychological investigation of characters revealing that the craziness imposed to them, at the moment of narrative, aims at exposing the individual decline and collective of people apart from the society and progress. Therefore this work wants to show how the joint between a narrative construction of time and of place represents, structurally, a revelation of human inappropriateness regarding a society that, when in transformation, expels the person and sticks him in the part, in present place.

 

KEYWORDS: Regionalism, novel of 30, place, time.

 

O autor projeta em Fogo morto a imagem de uma vivência coletiva através do destino individual, e é isto que confere à obra uma dimensão que a situa além do puro documento. Aqui o homem não é mais a mera extensão de uma paisagem específica, mas a espinha dorsal do relato.

Eduardo F. Coutinho

 

 

       O presente trabalho tem como objetivo analisar de que maneira as instâncias narrativas tempo e espaço, no romance Fogo morto, de José Lins do Rego, aliam-se na representação do desajuste humano frente às transformações sociais e histórico-econômicas incorporadas esteticamente pela narrativa. Partindo dessa perspectiva, a discussão em torno do romance parte de um olhar que considera a narrativa ao lado das particularidades que caracterizam o regionalismo de 30, já que Fogo morto, em consonância com essa tendência, apresenta aspectos que o ligam a essa produção - como o deslocamento do pitoresco (em que o homem era mera extensão da paisagem) para o enfoque no homem, com a denúncia crítica de questões relacionadas ao contexto retratado pela diegese.

 No entanto, pode-se dizer que Fogo morto ultrapassa esse regionalismo, em decorrência da multiplicidade de vozes aliada à figura do narrador, pontos que possibilitam o alcance do universalismo na narrativa. Desse modo, o caráter universal é atingido ao refletir os medos, as angústias e as dores humanas, expressas individual e coletivamente, que podem ser sentidas em qualquer tempo e lugar do cosmo, ou seja, são sensações e sentimentos que não constituem privilégio de apenas uma pessoa, nem efeito de determinado contexto. Concomitantemente, o universalismo presente na narrativa deve-se, também, ao fato de o leitor ter certa participação no processo criador, pois com a perspectiva múltipla, ele constrói uma visão particular acerca das ações e ideologias das personagens, compreendendo, assim, a realidade em torno destas.

       Faz-se necessário, portanto, atentar para alguns pontos desta obra, Fogo Morto tem como espaço o estado da Paraíba e a região açucareira deste. Quanto ao tempo histórico, a ação passa-se na segunda metade do século XIX (período de intervalo entre a derrocada do engenho e a ascensão da usina), estendendo-se até o início do século XX. Esta narrativa é acrescida pela representação de diferentes figuras do Nordeste: coronéis, artesãos, cangaceiros, trabalhadores, cantadores, aguardenteiros, mascates, policiais, políticos, negros forros, sertanejos, cegos andarilhos, comerciantes, entre outros, uma vez que, para José Lins do Rego a “literatura antes de mais nada precisava ser de sua gente, de sua terra, para atingir o plano universal” (CASTELLO, 2001, p. 49).

Fogo morto (REGO, 1997) constitui-se como romance de tensão crítica (BOSI, 1994, p.392) na medida em que proporciona uma compreensão maior da relação entre o homem e a esfera social habitada por ele em meios mais próximos, diferentemente de outras concepções regionalistas, em que esse entendimento era mais generalizado, o que torna perceptível a árdua resistência desses indivíduos às opressões advindas dos vários eixos sociais e, ainda, de frustrações pessoais. Atente-se que, no regionalismo de 30, a sociedade brasileira passava por inúmeras transformações políticas, econômicas, sociais e culturais que modificaram também a temática literária.

Os escritores desse período preocuparam-se em tecer uma littérature engagée (CASTELLO, 2001, p. 163).  Fogo Morto é literatura engajada com algumas especificidades, pois este romance vincula-se com a realidade específica e a ultrapassa, indo para a análise psicológica. Logo, a loucura presente na obra representa a humanização dessa realidade. Desse modo, tudo isso explicita o desconforto do sujeito diante do mundo, sendo que esta diegese exprime resistência a partir da tessitura narrativa.

       Esta obra é considerada continuação e síntese do “Ciclo da cana-de-açúcar”, com o enfraquecimento do cunho memorialista da ficção do autor, dando mais relevo à expressão diversificada do ser humano. Fogo Morto trata do período áureo do engenho até sua decadência e transição para a usina. O romance revela, através de conflitos individuais que se expandem na representação da coletividade, a inadaptação do sujeito diante da realidade que o cerca. Ele é tripartido estruturalmente, as partes são intituladas: “Primeira parte – O mestre Amaro”, “Segunda parte – O engenho de Seu Lula”, e “Terceira parte – O capitão Vitorino”. Essas partes são entrelaçadas, isto é, uma decorre da outra, ampliando seu foco de visão. Os protagonistas que denominam cada parte exprimem, de forma ora semelhante ora distinta, o desajuste do indivíduo perante as transformações sociais e histórico-econômicas. A obra é composta por uma visão que reflete as inquietações psicológicas de um povo, por meio do diálogo das múltiplas vozes que a permeiam.

                          José Lins do Rego instaura em Fogo morto uma narrativa “multifacetada, baseada na pluralidade de visões” (COUTINHO, 1991, p. 432). São, na maioria das vezes, situações dramáticas pessoais, mas que se tornam amplas, sugestivas em relação ao contexto social, que só são perceptíveis através dos relatos psicológicos do homem sertanejo. Assim sendo, são várias vozes que coexistem dentro do texto. Para isso, o romancista inscreve na narrativa o discurso direto e o discurso indireto livre com freqüência, o último aglomera os diversos discursos entremeados à voz do narrador por ser impossível distinguir o real detentor da voz, o já aludido ou as personagens, conferindo ao texto a ambivalência de ópticas. Essa técnica de narrativa multifacetada permite a ampliação da visão acerca dos pontos tratados pelo romance, pois é possível compreender o resultado das transformações de determinada época pela óptica de diferentes personagens, o que possibilita a discussão mais aprofundada no interior da obra e a visão mais abrangente das angústias e desejos dos indivíduos.

Diante disso, percebe-se que em Fogo morto a ênfase está no ser humano, a narrativa é organizada para expor esse aspecto. Dessa forma, há um narrador heterodiegético que tem o poder de denunciar as ideologias das diversas vozes presentes na narrativa, levando o leitor a ter uma visão condicionada e crítica, possuindo certos conhecimentos a respeito das personagens, o que faz com que ele tenha uma percepção clara das ações e da confluência de idéias individuais. A voz do narrador, além de denunciadora, instaura a dimensão crítica no romance, devido à função indagadora desta instância narrativa, que também organiza a polifonia de vozes, estruturando-a de modo coerente. Esse narrador insere o discurso indireto para se fazer presente na obra, sendo de suma importância, já que:

 

 

Ela controla toda a narrativa, designando-a, embora não de maneira explícita, como ficção, e construída talvez mais decisivamente do que qualquer outro elemento da obra para instaurar o sentido da relatividade que a projeta para além de seu tempo e para fora da série a que pertence. (COUTINHO, 1991, p. 435)

 

 

         Luiz Gonzaga Marchezan (2003, p.79) menciona que o narrador de José Lins do Rego, em Fogo morto, volta-se para o passado, realçando-o ao captar as transformações sociais e econômicas advindas da substituição do modo de produção do açúcar, que ora se dava por meio do engenho e passa a ser pela usina, igualmente as aponta de forma transparente e seqüencial. Aliada à relevância dessa categoria, há a focalização onisciente, na qual o foco narrativo revela a óptica de várias personagens acerca dos representantes maiores da obra, isto é, a tríade de personagens que divide o romance. Além disso, como a narrativa é tripartida e há três protagonistas, a ênfase altera de uma parte para outra, pode-se observar, nesse sentido, que o coronel Lula de Holanda Chacon, na primeira parte do romance, é visto por uma visão externa, já na segunda parte, o enfoque recai nele e, na terceira parte, como o foco está em Vitorino Carneiro da Cunha, o coronel Lula volta ao segundo plano, por um prisma externo. Este movimento de câmera em torno da personagem faz com que se amplifique e, principalmente, se diversifique a visão do mesmo. 

Como há a pluralidade de vozes, então, em determinados momentos, uma personagem é vista pela óptica de outra, ou seja, há alternância da focalização, que em algumas ocasiões, passa a ser interna fixa, fazendo com que o leitor tenha acesso à maneira como cada personagem enxerga e interpreta a imagem daqueles que com ela convivem. Cria-se, assim, uma visão multidimensional, diferentemente de Menino de engenho (obra geratriz do ciclo da cana-de-açúcar), em que o personagem Carlos de Melo é captado pelo leitor apenas pela concepção do narrador, isto é, trata-se de uma imagem única. Em Fogo morto, ao contrário, há vários “eus” (COUTINHO, 1991, p. 433) que, expressos na diegese, juntamente com a voz narrativa em terceira pessoa, aparentemente isenta, possibilitam a perspectiva múltipla. Desse modo, a inclusão da cosmovisão no texto concorre para a isenção de uma única verdade e permite ao leitor desenvolver a reflexão crítica, pois ele torna-se copartícipe da obra.

       Tendo visto a importância dos elementos narratológicos e da estrutura geral de Fogo morto para a compreensão do homem em sua inadaptação perante a sociedade, constrói-se, agora um rápido exame de cada uma de suas partes. Em “O mestre Amaro”, é apresentado o universo do seleiro José Amaro, a sua família (composta pela submissa mulher Sinhá e a sua filha Marta que caminha para loucura) e outros componentes na narrativa, como Vitorino e sua esposa Adriana, José Passarinho, o cego Torquato, José Paulino, o tenente Maurício, capitão Tomás e sua mulher Mariquinha, Olívia, Lula de Holanda e sua companheira Amélia, estes construídos nesse primeiro momento sem muita profundidade.

       José Amaro representa uma classe intermediária diante da hierarquia da economia açucareira, é o artesão. Há também a exposição de que a personagem habita sem pagar foro nas terras do coronel Lula de Holanda, no engenho Santa Fé, cuja casa é localizada em um ponto de convergência na beira da estrada que dá acesso para este engenho e para o Santa Rosa, bem como para a Vila do Pilar e o sertão. Mestre Amaro é alguém desiludido com a profissão, igualmente com a vida familiar, visto que sua filha está sempre chorando às escondidas e a sua mulher resmunga, sem aceitar aquela existência miserável. Soma-se a isso que seu drama é agravado, devido à imaginação popular o ver metamorfoseado em lobisomem, conduzindo-o a devoção ao capitão Antônio Silvino, o cangaceiro símbolo de resistência política e ideológica no sertão. O desconforto humano e a solidão na alma levam o mestre Amaro a encerrar sua própria vida.

       Na segunda parte, “O engenho de Seu Lula”, há uma volta ao passado, em que se fazem explicações de pontos obscuros da parte anterior e alguns personagens ganham mais relevo, pois esta parte traz o desvendamento da história do engenho Santa Fé, revelando a construção do engenho pelo esforço e pela coragem do capitão Tomás Cabral de Melo, seu fundador, além de um retrato mais profundo de Lula de Holanda, o atual proprietário das terras. Aborda-se desde o momento da opulência do Santa Fé até sua decadência, o que se relaciona com o título do romance.

Além disso, são traçadas as conseqüências dessa trajetória para as famílias nele residentes: a do primeiro senhor-de-engenho, o já mencionado capitão, é formada pela sua esposa Mariquinha e suas filhas estudadas, Olívia (que enlouquece para desgosto do pai) e Amélia. A última se casa com Lula de Holanda, com quem tem uma filha, a solteirona Neném, formando a segunda família que comanda este engenho, antes glorioso e agora atrasado, devido ao fato de Lula de Holanda se mostrar desinteressado em manter o mesmo ritmo de trabalho do sogro. Aquele vivia de aparências, transitando em seu velho cabriolé, o que acontece porque sua intenção era realizar um casamento por interesse financeiro, tanto que briga com a sogra na partilha da herança. Acrescenta-se que, nessa parte, o leitor visualiza a crueldade de Lula com os escravos, juntamente, ele acompanha o momento da Abolição da Escravatura, em 1888, com o abandono desses trabalhadores do engenho e a conseqüente falência deste.

       Na última parte, o eixo-motor é Vitorino Carneiro da Cunha (que é casado com a dona Adriana e tem um filho na Marinha, no Rio de Janeiro), o qual se mostra em transformação no decorrer da narrativa, mas é aqui que ele se destaca, ao passar do ridículo e digno de pena Papa-Rabo do início da narrativa a herói com grande humanidade. Esta personagem é vista pela crítica como um Dom Quixote, pois luta por seus ideais enfrentando a tudo e a todos, armado apenas com a palavra. O conceito público referente ao capitão Vitorino cresce ao passo que ele se revela detentor de imensa dignidade e coragem. Agrega-se a isso o fato de este protagonista transitar na narrativa e no espaço desta, ele é o elo entre os personagens. Esta terceira parte, com enfoque em Vitorino, realiza o entrelaçamento das três partes. Vitorino é dotado do intuito de ajudar os necessitados e faz isso com o mestre Amaro, quando este é preso, e com o Lula de Holanda no momento em que os cangaceiros invadem a casa-grande, porque ele sempre está em todos os lugares contribuindo de alguma forma, mesmo que tenha que sofrer as conseqüências, como quando foi preso e surrado.

Ainda nesse terceiro momento da narrativa há a visualização do poder do cangaço, da decadência econômica e do percurso da derroca individual. Deve-se mencionar, também, que outras personagens ganham maior relevo neste final, como o cego Torquato e o negro Passarinho que, como as outras personagens “evoluem e se enriquecem humanamente seja em sofrimento seja em grandeza” (CASTELLO, 2001, p. 122). Com isso, percebe-se que, em Fogo morto, as pessoas são transformadas em personagens carregadas de humanidade, visto que José Lins do Rego os faz grandes e significativos:

 

[...] são sempre indivíduos colocados numa linha perigosa, em equilíbrio instável entre o que foram e o que não serão mais, angustiados por essa condição de desequilíbrio que cria tensões dramáticas, ambientes densamente carregados de tragédia, atmosferas opressivas, em que o irremediável anda solto. Os seus heróis são de decadência e de transição, tipos desorganizados pelo choque entre um passado divorciado do futuro (CANDIDO, 1991, p. 392).

 

 

       José Amaro, Lula de Holanda e Vitorino Carneiro da Cunha querem a todo o momento provar o seu valor, mas esse valor não existe dentro da esfera social ocupada por eles, são, na verdade, três fracassados e frustrados. Contudo, o leitor percebe que a importância de tais personagens é por representarem seres humanos, sendo a questão humana que os coloca em evidência, pois sentem aquilo que qualquer pessoa pode sentir, e mais, revelam isso. Os três protagonistas são muito diferentes, com situações econômicas distintas, mas comungam dos mesmos sentimentos (medo, angústia, tristeza, desespero e, sobretudo a incompreensão de si e do mundo) diante das transformações sociais e histórico-econômicas. Então, eles exprimem em si mesmos a inadaptação frente à realidade que os cerca e a falta de lugar no mundo, daí a mobilidade do capitão Vitorino, o apego à casa do mestre Amaro e a loucura em volta de Lula de Holanda que, fixado no engenho Santa Fé, se volta para a ostentação e as rezas. Isso se dá com essas personagens porque elas estão presas a um tempo passado, o de esplendor do engenho Santa Fé, no espaço presente.

       Diante do processo de modificação econômica e social, José Amaro e Lula de Holanda sentem o peso esmagador da realidade que os cerca. Quando Darcy Ribeiro (2000) retrata as condições humanas, as diferentes faces da imagem dos indivíduos em determinado contexto social, mostra as causas que levaram e conduzem o homem à dura decadência, as transformações profundas na vida e nos valores do povo brasileiro. Todas essas mudanças causam, no nível do sujeito que as vive, angústia, instabilidade, nostalgia, indecisão, incompreensão diante da vida (MARCHEZAN, 2002, 54), isto é, afetam diretamente no comportamento destas personagens.

Sob esse aspecto, estes protagonistas buscam se constituir e firmar suas identidades, para isso se agarram aos hábitos e tradições, bem como ao espaço ocupado por eles. A esse respeito, devem ser consideradas as casas habitadas por tais personagens e a localização delas. O seleiro José Amaro reside nas terras do engenho Santa Fé, em um ponto de entrecruzamento para vários lugares, em uma casa simples, sem conforto e com poucos utensílios domésticos. Já Lula de Holanda é o proprietário do engenho mencionado e, conseqüentemente, mora na casa-grande.

 Sem dúvida, o espaço se faz importante na busca de afirmação da identidade. O lugar onde o ser humano habita tem um significado ímpar em sua vida e é algo que o constitui e lhe pertencerá intimamente para todo o sempre, haja vista que “a lembrança das solidões estreitas, simples, comprimidas, são para nós experiências do espaço reconfortantes, de um espaço que não deseja estender-se, mas gostaria, sobretudo, de ser possuído mais uma vez” (BACHELARD, 1993, p. 29). Ainda de acordo com Bachelard (1993), o espaço é bastante relevante na constituição do sujeito, em especial a casa, pois as paredes distanciam o sujeito do mundo exterior, elas o protegem. Quando ele as ultrapassa, vê-se diante dos problemas, daquilo que o oprime, pois está fechado em seu íntimo e protegido: a casa é o lugar onde o homem encontra conforto espiritual e psicológico.

Nenhum lugar no mundo tem a importância de uma casa ou deixa lembranças tão profundas, porque nela se adicionam valores e sonhos, e mais, ela abriga os sonhos, é algo sentimental que fica retido na memória. A casa resguarda o ser humano dos problemas, das dificuldades da vida, então, quando este se vê sem a casa em que mora fica sem o seu lugar físico, a casa, e perde igualmente o seu lugar no mundo, pois “sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida” (BACHELARD, 1993, p. 26).

Essa identidade entre o sujeito e sua casa explica por que Lula de Holanda, José Amaro e Vitorino Carneiro da Cunha descartam a possibilidade de deixar o lugar onde vivem. Mesmo Vitorino, que não tem a fixidez dos outros protagonistas, está preso àquele local, conforme: “[...] não deixaria a sua terra por outra qualquer. Nem que fosse por um reino” (REGO, 1997, p. 203). Tendo em vista que a representatividade da casa ou de um lugar para o ser humano não está na sua descrição, mas na idéia de um sentimento aliado a ela, explica-se o motivo de José Amaro estar ligado a sua casa apesar de esta não trazer aconchego para ele. Esse elo deve-se ao vínculo entre o ser humano e a casa onde vive, como é observável em: “O mestre não encontrava apoio para fugir da preocupação. Entrou outra vez para o quarto, e não tinha paz, não estava seguro de nada. [...] A casa ficaria mais só, mais cheia de tristeza. Mesmo assim amava a sua casa” (REGO, 1997, p.105).

O verdadeiro bem-estar de José Amaro e de Lula de Holanda não está no presente da narrativa, mas é vivido através da memória, do sonho em reter o tempo em que viviam nos limites da felicidade. Assim, temos a união das lembranças com a imagem criada por meio das experiências destes, a casa é um ambiente propício para reviver o passado, haja vista que, sem a proteção desta, o sujeito é um corpo estranho e sem direção no cosmo, nisto comprova-se o valor da casa na vida do homem, uma vez que ela mantém o indivíduo afastado das turbulências da vida, é uma espécie de calor material que acolhe o ser, isto é, representa um seio maternal.

Percebe-se, nesse sentido, que, em determinados momentos, as personagens sentem-se vinculados a suas casas porque o espaço habitado por elas evoca um tempo que querem que seja revivido.  Portanto, encontram-se no tempo a partir do espaço, já que é no e pelo espaço que o sujeito se constitui, se reconhece, pois mesmo sabendo que as vivências passadas não têm o poder de serem repetidas, são peças fundamentais para a constituição do presente.  Referente a isso, que se reafirma o desejo das personagens em reviverem o tempo de esplendor do engenho, e até mesmo de conforto junto a suas famílias. Isso se deve ao fato de as lembranças serem para eles confortantes, é um lugar profundamente fixado a seu inconsciente humano.

Outro aspecto concernente ao mestre Amaro, a Lula de Holanda e a suas casas diz respeito ao fato de que o espaço reflete as suas frustrações e desajustes. Isso pode ser expresso por meio da escuridão que existe no interior das casas, a qual é possível de ser identificada à falta de norte desses sujeitos que não conseguem acompanhar a evolução do momento histórico. Deve-se notar que a casa habitada por essas personagens constitui um ambiente melancólico, da mesma maneira como elas estão envolvidas pela tristeza, visto que, segundo Bachelard (1993), o espaço é a representação imagética do sujeito, há uma ligação entre os dois.

Esse atrelamento existe tanto no interior da casa quanto no exterior, porque o espaço em volta da casa a complementa, então, quando as personagens se sentem atormentadas, frustradas ou em desalento, a natureza transmite uma sensação agradável através dos cheiros das árvores, do canto dos pássaros, entre outras coisas, isso para enfatizar os seus sentimentos de desequilíbrio. Concomitantemente, existe a humanização do espaço, o engenho cresce como um ser vivo, as paredes são mostradas como possuidoras de feridas, demonstrando o passar do tempo, ou ainda, quando se descreve o piano na sala do Santa Fé: “Estenderam no meio da sala o piano de cauda que o capitão Tomás trouxera do Recife. Parecia um grande animal morto, com os pés para o ar. Um cangaceiro de rifle quebrou a madeira seca, como se arrebentasse um esqueleto” (REGO, 1997, p. 218).

Como a construção do espaço funciona como aspecto central referente às personagens, assume papel importante na determinação de suas ações e, ainda, nos sentidos que são articulados dentro do texto. Segundo Marchezan (2002, p. 42), a terra é um dos elementos que direcionam o comportamento das personagens, relativo a essa ligação é relevante trazer para a discussão a figura de José Amaro, que se mostra tão arraigado a ela que, em determinada noite, sai para espairecer e é tomado por sentimentos e sensações involuntárias, as quais o deixam desacordado por alguns instantes até ser encontrado como um animal selvagem, com os dentes cravados na terra, as unhas sujas, com o rosto no chão. Nesse sentido, a terra representa, agora na perspectiva de Lula de Holanda, um símbolo de poder, haja vista que é proprietário de um engenho, mas que de certa forma o deixa frustrado por não conseguir mais autoridade, a mesma que é mantida por Jose Paulino, proprietário do Santa Rosa, em ascendência constante. De tal modo, verifica-se a importância do espaço, da terra, do lugar habitado, da casa na constituição de significados na narrativa.

 Ao mencionar essa forte representatividade da casa na vida das personagens, faz-se importante ressaltar que o leitor consegue visualizar o espaço habitado por estas famílias, o que se torna marcante é a possibilidade de criar imagens ao ponto de sentir o cheiro das casas, contribuindo para a atmosfera de degradação presente na narrativa (DIMAS, 1987, p. 68). A casa de Lula de Holanda lembra o passado, pois “a sala vazia cheirava a mofo, [...] quando saiu da sala e chegou lá fora, no ar livre, a velha Adriana era como se tivesse fugido de uma prisão” (REGO, 1997, p.31), além disso, nota-se que as personagens aí inseridas estão acorrentadas ao tempo de outrora.

Já quanto à casa do mestre José Amaro, o cheiro de couro é que prevalece no interior da casa, “era o cheirar da sola, a inhaca medonha de que não podia se separar” (REGO, 1997, p.38). Essa presença latente do odor de sola na casa é um cheiro único, porque é resultante do seu trabalho, ofício que fora herdado do pai e que é a sua vida, então, há a validade da profissão na sua história humana, tanto é que, no próprio corpo de José Amaro, há marcas desse odor, comprovando a ligação íntima entre as duas ordens: homem e ofício.

Com o estabelecimento de tal complementaridade se certifica o caráter formador da casa na vida do ser, uma vez que a tenda onde trabalha fica junto a casa. Assim, o cheiro assinala uma intimidade, aquilo que dá vida ao mestre, ou seja, na casa está a sua vida. Daí o fato de que, quando ele se sente sem lugar no mundo, demonstra o seu envolvimento com a casa, onde se visualiza a derrocada do indivíduo e da casa, pois esta tinha vida enquanto existia a família e as recordações agradáveis.

 

 

A sua casa se destruíra para sempre. Como naquela manhã da saída de Marta para o Recife, uma dor diferente doía-lhe na alma. Na sala escura a tenda parada. Nem o cheiro de sola nova enchia a casa com aquela catinga que era a sua vida. Olhou para os utensílios, para os seus instrumentos de trabalho, e, vendo-os para um canto, ainda mais se sentiu um inútil, perdido para sempre (REGO, 1997, p.225).

 

 

Eis como a casa, aqui, “é o corpo e a alma” (BACHELARD, 1993, p.26), ela dá razões para que a associação de imagens representada por ela se torne aspecto de centralidade para este. Atente-se, neste ponto, que a conexão de Amaro com a casa é como a uma prisão da qual ele não quer se libertar, como é perceptível em: “[..] na rede, deitado, sem coragem de botar os pés para fora de casa, era como se estivesse numa cadeia, preso, domado por um poder que não venceria” (REGO, 1997, p. 176). Por isso, vislumbra-se que em algumas partes José Amaro procura se distanciar de sua casa, motivo pelo qual realiza longas caminhadas noturnas, visto que ela guarda, além de boas lembranças, grandes tristezas, a miséria, a frustração, a desestruturação familiar, entre outras, o que lhe causa aversão, isso é notável na seguinte citação: “Havia dentro dele um vazio esquisito. Teve medo de voltar para dentro de casa. E ali mesmo, por debaixo da pitombeira, baixou a cabeça e chorou como um menino.” (REGO, 1997, p. 111). Sob esse aspecto, às vezes a imagem da casa não é acolhedora para o seleiro, porque ela representa também um tempo vivido desagradável para ele.

O espaço é captado por formas distintas, pois depende da intimidade dos indivíduos com tal, desse modo, há diferentes visões sobre a casa de Amaro. O cangaceiro Antônio Silvino a vê como um ponto estratégico; Lula de Holanda a vê apenas como algo que lhe pertence, já que está inserida em suas terras. Então, para reafirmar o seu poder, Lula de Holanda expulsa o mestre Amaro da casa e, quando faz isso, é sem a consciência daquilo que verdadeiramente prende o mestre Zé àquele lugar, pois, ao contrário do que todos pensam, a segurança deste não está no capitão Silvino, que dá garantias de que ele pode permanecer na casa, a questão é a própria casa, devido à representatividade dela para o ser humano, ela é o único bem material que José Amaro acredita possuir e concatena sentimentos e sensações singulares. Apesar da casa não lhe pertencer, Zeca está arraigado a ela, porque é um ambiente repleto de significados e lembranças, tanto que ele escolhe a sua casa e a sua ferramenta de trabalho para se suicidar, o que reafirma a ligação do personagem com o espaço por ele habitado, o significado da casa e do trabalho para o seleiro era a sua própria vida e ele não quis sair dali nem no fim: “Era duro ir morrer fora daquela casa que fora de sua gente, que sentia como verdadeiramente sua” (REGO, 1997, p. 104).

Assim como Amaro, Lula de Holanda encontra-se preso a casa, principalmente quando se considera que, diante de uma proposta de venda do engenho, ele a recusa veementemente, mas ao citar que o engenho era do sogro se percebe o fato do seu vínculo ser graças à época de apogeu da propriedade e da imagem de poder a ela ligada: – Sim senhor, vou sair daqui para o cemitério, hein, pode dizer por toda parte.[...] – Hein, Amélia, veio aqui comprar o engenho do teu pai” (REGO, 1997, p. 213).

Essa figura da ostentação do poder se reafirma na medida em que se observam as recordações que a personagem guarda da época de glória do engenho Santa Fé, o que é perceptível no número 1850 pintado na parede da casa-grande, data do momento de maior esplendor do engenho, em que foi realizada a última pintura da casa. Destarte, há duas instâncias narrativas importantes, tempo e espaço, na caracterização das situações dramáticas pessoais, que retratam psicologicamente o homem de determinado local, porque “[...] um ser que não quer passar no tempo; que no próprio passado, quando sai em busca do tempo perdido, quer ‘suspender’ o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço” (BACHELARD, 1993, p. 28). 

Nota-se que essa relação do espaço com as lembranças vivenciadas pelas personagens é que os insere em um tempo retroativo, porque o período áureo do engenho Santa Fé continua impregnado nos pensamentos de José Amaro e Lula de Holanda, os quais evocam o tempo anterior por meio da construção de imagens na memória, ao passo que são incapazes de entender o presente no qual estão imersos, de modo que a realidade não lhes oferece condições de adequação. Com isso, percebe-se que o espaço prende as personagens ao passado, este que se mantém cristalizado na vida dos protagonistas e que contribui para a crescente inadequação desses sujeitos perante os novos modos de vida, afastando ainda mais as possibilidades de se entenderem e se reconhecerem integrados ao mundo. É a partir da dimensão psicológica das personagens do romance, entremeada à fala do narrador heterodiegético, que o leitor toma conhecimento das fendas dos pensamentos dessas, as quais refletem sobre as suas vidas e as de suas famílias, atreladas ao espaço em que habitam. Assim, a projeção da importância do espaço na análise da vida humana, a qual é expressa pela tríade de Fogo morto, faz-se possível ao considerar o ato de subjetivação que concatena os significados articulados nas categorias de tempo e espaço presentes no romance.

 

Da falência do espaço ao tempo de outrora

 

       O próprio título do romance já indica a existência de um tempo vinculado à estagnação sócio-econômica de um período histórico, que é expresso através do espaço, então, reafirma-se a relevância de se observar de maneira mais detalhada as instâncias narrativas na análise da obra Fogo morto, em especial o tempo e o espaço, os quais, segundo Bakhtin, (1998) são indissociáveis. Partindo disso, o teórico desenvolve o conceito de cronotopo, que é a aglutinação das duas categorias em questão:

 

 

O cronotopo sempre contém um elemento valioso que só pode ser isolado do conjunto do cronotopo literário apenas numa análise abstrata. Em arte e literatura, todas as definições espaço-temporais são inseparáveis umas das outras e são sempre tingidas de um matiz emocional (BAKHTIN, 1998, p. 349).

 

 

Nessa esteira, deve-se atentar para como o tempo é uma grandeza natural ininterrupta ao poder humano, é um movimento contínuo por meio do qual se realizam as ações. Essas atitudes se distribuem em lugares específicos e distintos, se forem colocados em comparação pessoas diferentes em contextos também diversos, porém, o singular e o consonante dessa articulação é que todas as ações são possíveis a partir de um espaço e de um tempo determinados. Como se vê, os respectivos elementos narratológicos estão estreitamente correlacionados à representação do movimento que faz parte do dia-a-dia das pessoas, mas de forma silenciosa, sem que haja certa preocupação consciente sobre tais funções.

A intersecção das duas unidades é possível uma vez que o espaço figurativiza as ações, o tempo em que foram dispostas, o que comprova o cronotopo como elemento espaço-temporal. No âmbito do romance em questão, a data 1850 na parede é a concretização do tempo e do espaço, pois “A casa-grande do Santa Fé tinha o sol em cima da cal encardida de suas paredes. A luz do dia ainda ficava pelo portão sujo, iluminando as cornijas azuis. 1850.” (REGO, 1997, p. 205). A imagem da data pintada na entrada da casa mostra-se como a maneira mais expressiva do cronotopo, pois as personagens têm a possibilidade de visualizar a todo o momento a junção das duas dimensões, levando o leitor a verificar tal indissociabilidade, haja vista que a espacialidade aciona o tempo.

Bakhtin (1998) aponta a existência de vários cronotopos, contudo, faz-se necessário a ressalva de um em particular, que serve à interpretação dos significados contidos na narrativa de José Lins do Rego, o cronotopo da estrada. Este se liga ao cronotopo do encontro devido à estrada ser um ponto de incidência do encontro:

 

 

Na estrada cruzam-se num único ponto espacial e temporal, os caminhos espaço-temporais das mais diferentes pessoas, representantes de todas as classes, situações, religiões, nacionalidades, idades. Aqui podem se encontrar por acaso, as pessoas normalmente separadas pela hierarquia social e pelo espaço, podem surgir contrastes de toda espécie, chocarem-se e entrelaçarem-se diversos destinos (BAKHTIN, 1998, p. 349-350).

 

 

Assim como foi mencionado no início desse artigo, a casa do mestre Amaro é situada em um ponto de convergência e trânsito de diferentes sujeitos, visto em: “Sabia que a sua casa ficava num ponto de passagem de primeira ordem. Ali era a passagem para todos os cantos.” (REGO, 1997, p. 106). Então, observa-se que este local da estrada é um ponto de intersecção para os personagens; para a narrativa, pois mestre Amaro envolve toda a seqüência narratológica (MARCHEZAN, 2002, p. 42-43); e revela a união entre tempo e espaço, visto que no presente da narrativa, como já fora ressaltado por Marchezan (2003, p.72), as personagens trilham caminhos antes percorridos por outras pessoas.

Pensando em José Amaro, este caminha na estrada em que seu pai andou e habita a casa que foi dele, certificando a relação intrínseca entre tempo e espaço, haja vista que o tempo é recuperado por meio do espaço e a estrada é o elo entre os dois. Além disso, a estrada é um ponto intersticial que possibilita a passagem para os dois engenhos, o Santa Fé e o Santa Rosa, aquele decadente e este em progresso, mostrando o encontro de tempos distintos em espaços próximos, pois são vizinhos e um se reteve no tempo passado, ficando atrasado, enquanto o outro acompanhou a evolução, não se estagnou. Essa questão leva ao fato de que José Amaro e Lula de Holanda estão acorrentados a um tempo em que existia o esplendor do engenho Santa Fé por meio do entrelaçamento com o espaço que percorrem e onde vivem.

A imagem da estrada na narrativa de José Lins do Rego é envolta por vários significados, de modo que, ao se relacionar a casa de Amaro a um ponto de veiculação a diversos lugares para o sertão, pode-se considerar que ela está inserida em um ponto mediano deste caminho, sabe-se que a “estrada faz com o tempo se escande e avance” (AMORIM, 2006, p. 102), onde há o encontro temporal através da imagem dessa estrada. Isso porque para se adquirirem sentidos ou se projetarem além da temporalidade em questão, os acontecimentos devem ser relacionados a um tempo e a um espaço específicos, assim, confirma-se a indissociabilidade do espaço e do tempo discutida por Bakhtin (1998). Acrescenta-se, também, que é por meio dessa mobilidade disposta pela estrada que o ser chega até o outro, reconhece o outro, (AMORIM, 2006, p. 106), para que se constitua enquanto sujeito é necessário se identificar no outro, o que não ocorre com José Amaro, a imagem do outro não lhe reflete e, ainda, é incapaz de definir sua auto-imagem e a presença do outro na sociedade atesta o seu estranhamento diante do mundo.

Sob essa perspectiva, é interessante notar a alternância de identidade proporcionada ao homem pela passagem do tempo, suas acepções acerca do mundo, seus desejos e aspirações diferem-se com o passar dos tempos. Do mesmo modo, o sujeito redimensiona simultaneamente aspectos físicos e psicológicos, idéia esta que culmina com a epígrafe exposta no início desta parte do trabalho. E ao se relacionar a detenção das personagens José Amaro e Lula de Holanda ao passado, comprova-se a figura de um homem velho que não se identifica aos atuais modos de vida, isto é, continua encurralado em seu contexto particular, desconhecido e a margem da sociedade na qual está inserido, visto que a nova temporalidade não gerou um novo homem. Ressalta-se, ainda, que nesta narrativa de José Lins do Rego as personagens expressas são, na maioria das vezes, pessoas velhas e se denominam velhas, não há crianças nas principais famílias no presente da narrativa. Considerando que a criança, como é do conhecimento de todos, simboliza a renovação, a mocidade e o progresso, a ausência dessa imagem na narrativa reafirma a estagnação que se vem discutindo.

       A estrada também revela a idéia de transitoriedade, com isso, observa-se que a casa a que José Amaro está arraigado não lhe pertence, ela se localiza no engenho Santa Fé, mas como o capitão Tomás abrigou seu pai e concedeu a ele a moradia por tempo indeterminado o filho herdou esta casa e, mesmo tendo consciência que reside em terras do atual proprietário Lula de Holanda, Amaro vê a casa como sendo sua, pois ali viveu desde criança. Isso porque “a casa é o nosso canto no mundo” (BACHELARD, 1993, p.25), o ser humano tem laços com o lugar onde vive.

Todavia, a localização da casa de Amaro em um espaço de trânsito expõe a sua falta de fixidez, principalmente quando ele é expulso, fica clara a inconstância da vida – “[...] não podia compreender que tivesse sido jogado para fora do Santa Fé. Aquela casa que tinha sido do seu pai, onde nascera, onde aprendera o ofício, seria de outro (REGO, 1997, p. 103) – , pois apresenta esse protagonista sem lugar fixo no mundo. Também, a família de Amaro reside em um ambiente de intenso trânsito, há várias visões de diferentes pessoas acerca deste grupo familiar e da casa dele, levando o leitor a vê-los intimamente, bem como a significância de tal espaço, conhece-se a trajetória dessas personagens, a vida delas e os seus sofrimentos.

Desse modo, é possível entender a situação marginal que envolve José Amaro, expressa no fato de ele residir à beira da estrada, revelando que não está nem na cidade nem no campo. Além disso, reflete o seu entrave entre dois mundos, pois se localiza à margem da sociedade, uma vez que não conseguiu acompanhar o desenvolvimento da sua profissão e, igualmente, é marginalizado individualmente já que somente ele e sua família perderam a casa da qual não pagavam foro, sendo isso o que intensificou a falência desta personagem.

Outro ponto aliado a essa questão transitória é o protagonista Vitorino Carneiro da Cunha, o quixotesco, “[...] é Dom Quixote que vai para a estrada para encontrar nela toda a Espanha, desde o forçado que anda nas fales, até o duque. Esta estrada já é profundamente intensificada pelo transcurso do tempo histórico, pelas marcas e pelos sinais da sua marcha, pelos indícios da época.”(BAKHTIN, 1998, p. 349-350). Nesse sentido, iluminam-se os múltiplos encontros na estrada e o caráter de trânsito temporal, haja vista que ele não se fixa, fica andando de um lugar para outro na narrativa, vai à casa do mestre Amaro, aos engenhos, à Vila do Pilar, como alguém que sempre está em busca de algo ou que foge de enfrentar alguma coisa, revelando que o espaço e o tempo estão aliados à representação do indivíduo.

A relação desses elementos narratológicos concernentes à composição de Vitorino não se refere à fixidez da casa, mas à mobilidade da personagem. Acrescente-se que ele não fica parado, ao contrário, acompanha o desenvolvimento sempre tentando mudar a realidade e, para tanto luta continuamente contra os poderosos e a injustiça social. Até o último momento, ele pensa no progresso, atente-se para a imagem dele planejando o crescimento para a Vila do Pilar e para a região quando ele se tornasse chefe político e, no final, quando caminha conversando com José Passarinho com a atenção voltada para o desenvolvimento, com o questionamento sobre o momento em que o engenho Santa Fé vai botar fogo novamente. Do mesmo modo como não fica estagnado em um lugar específico, o capitão Vitorino se modifica no decorrer da narrativa, a visão de todos sobre ele também se transfigura, deixando de ser o inferiorizado Papa-Rabo e passando a um ser humano repleto de heroísmo:

 

 

O mestre José Amaro estava sentado na tenda, sem trabalhar. E quando viu o compadre alegrou-se. Agora as visitas de Vitorino faziam-lhe bem. Desde aquele dia em que vira o compadre sair com a sua filha para o Recife, fazendo tudo com tão boa vontade, que Vitorino não lhe era mais o homem infeliz, o pobre bobo, o sem-vergonha, o vagabundo que tanto lhe desagradava (REGO, 1997, p. 182).

 

 

       Em consonância com o exposto há também a presença do cabriolé de Lula de Holanda na estrada, representando ora a grandeza ora a decadência, ao passo que na época de apogeu do engenho Santa Fé era um símbolo de nobreza e riqueza único na região, já no presente da narrativa, esse meio de transporte constituía-se como símbolo do atraso. Além disso, o apego ao cabriolé representa uma tentativa de preservar sua figura de imponência, de domínio e de segurança, as quais causam um colapso entre presente e passado no interior desses sujeitos, porque as lembranças de uma época de magnificência atormentam os seus pensamentos. Ademais, a família dentro do cabriolé retrata que seus integrantes estão fechados em um espaço-tempo, porque “com o carro, é possível mudar de lugar, sem mudar de lugar. Atravessar diferentes paisagens tendo sempre o mesmo ângulo de visão” (AMORIM, 2006, p. 106), é estar isolado em meio a um turbilhão de acontecimentos.

A estrada é um lugar de trânsito físico, no qual passam pessoas, animais e veículos, com tráfico intenso e grande entrecruzamento de personagens com destinos quase sempre opostos. Esse movimento, que existe no ritmo da narrativa, expondo este desejo frenético de se chegar a algum lugar, revela o emaranhado de tempos e reflexões na mente dos indivíduos que parecem estar em busca de se entenderem e de compreenderem o mundo em que vivem. Assim, a estrada também reflete o trânsito de tempos, reunindo no mesmo espaço o tempo do passado e o do presente, o que leva à percepção do cronotopo, no qual o tempo e o espaço estão entremeados e que, na obra Fogo morto, expressa os desajustes humanos identificados principalmente por meio das personagens centrais do romance.

Dessa maneira, o tripé que sustenta a narrativa se constrói por meio das ações dos protagonistas, os quais pertencem a veredas distintas, mas todos estão ligados à esfera de desenvolvimento do engenho Santa Fé, devido ao fato de estarem inseridos em um local e em um tempo vinculados ao engenho.  Isso significa dizer que as personagens estão atadas ao período de maior prosperidade do engenho, que ocorreu após a sua fundação, em 1848, pelo capitão Tomás, o senhor que conseguiu através de muita dedicação e trabalho dar prosperidade ao local, o qual passou a ser respeitado pelos demais engenhos vizinhos.

Esse período áureo se deu em 1850 e é marcado pela vinda de um piano para Amélia, também é o ano em que se realizou a última pintura na casa. Destarte, o que faz esses protagonistas terem traços comuns no presente da narrativa é que, agora, estão envolvidos em situações passadas que jamais voltarão, assinalando a decadência do indivíduo que reconhece sua situação marginal, mas o que sustenta o desajuste dos sujeitos é a ausência de oportunidade, de mudança e, ainda, a estagnação da produção de açúcar deste engenho, conforme: “[...] enquanto na várzea não havia mais engenho de bestas, o Santa Fé continuava com as suas almanjarras. Não botava máquina a vapor” (REGO, 1997, p. 161), haja vista que a mudança de engenho para usina gera a significativa transformação do sistema sócio-econômico que afeta desde o proprietário até os agregados. 

A atmosfera transmitida pela obra é de uma sociedade em que prevalecem os sentimentos de ressentimento, de revolta, uma completa ruína social, é o desconforto ante ao mundo. Tudo isso é reflexo do confronto temporal que segue na vida das personagens, a dimensão psicológica entremeada à narração permite revelar ao leitor a confluência de tempos que há no interior daquelas, haja vista que a sua realidade não condiz com seus hábitos e costumes, os quais ainda pertencem a um momento retrógrado. Diante do contraste entre a decadência do presente dos fatos narrados e o idealizado, lembrado, pelas personagens, a imagem que se tem é de pessoas presas ao passado e inadaptadas diante do declínio expresso pelo espaço que faz lembrar o tempo. Com isso, ocorre uma aguda crise existencial, uma vez que esses sujeitos desejam viver um tempo alheio ao seu, evocam em sua memória tempos de estabilidade econômica, de glória do engenho Santa Fé que, no presente, encontra-se arruinado.

Como antes já se mencionou em alguns momentos, há o número 1850 recorrentemente na obra:

 

E sem que fosse visto, reparou na barba branca, no todo espigado, no olhar vago do coronel Lula de Holanda. O sol batia mesmo em cima dos números escritos no frontão: 1850. (REGO, 1997, p. 100).

 

Lá estava no frontão de casa-grande a data de 1850. Naquele ano dera uma pintura nova na casa. Fora o ano da chegada do piano. (REGO, 1997, p.118).

 

Lá estava a casa-grande. E a figura do capitão Tomás tomava conta da tristeza da filha. 1850, número que ela desde menina guardava como do tempo da grandeza. (REGO, 1997, p. 168).

 

 

Isso enfatiza a decadência do presente por remeter a um passado de esplendor do engenho Santa Fé, mas que se refere a um período histórico-social, alicerce da idéia de “eterno retorno” (NUNES, 1995, p. 70), conduzindo a existência de um movimento cíclico realizado pelas personagens, na esfera psicológica, pois estão sempre voltando ao tempo de magnificência do engenho, a data 1850. E o retorno ao passado acontece até na estrutura do romance, já que a segunda parte se configura em uma analepse (NUNES, 1995, p.32), cuja função é levar ao leitor o conhecimento de dados anteriores significativos, como a história de grandeza e declínio do engenho do capitão Tomás.

Esta data recorrente na narrativa dá a impressão de não querer passar, parece que o tempo de outrora quer permanecer no presente. Segundo Amorim (2006), os acontecimentos se tornam expressivos a partir do momento no qual estão situados no tempo, isto é, a importância de uma data, por isso as personagens se voltam para a data de 1850, pelo significado que o ano representa para elas. Bachelard (1993) acrescenta que o espaço possui estreita relação com o tempo, pois o tempo retido na memória não é aquele das datas, e sim o que é representado pelo espaço, ou seja, o espaço guarda sentimentos e recordações de determinado tempo que as datas não guardam. Fica claro, assim, que a relevância se encontra no sentido expresso pela data e pelo espaço, a estagnação.

A resistência ao progresso e à decadência é expressa por meio de múltiplas imagens, as citadas anteriormente, como a do estagnado engenho Santa Fé que, ao contrário do período áureo, sustenta-se com as moedas de ouro do capitão Tomás e com os ovos das galinhas de Dona Amélia.  Soma-se a isso a imagem de Amélia e Neném com as mesmas jóias de outrora, ostentando algo que não possuem, pois a grandeza desta família ficou no passado, a própria esposa do coronel Lula se sente mal em continuar usando as jóias, mas o marido faz questão.

Além disso, deve-se notar o cabriolé, a carruagem utilizada por Lula que, no presente, é a mesma de tempos anteriores, a qual é associada à íntima tensão da personagem com o passado. Quando o cabriolé deixa de passar na estrada, é perceptível o empobrecimento, pois antes causava sensações agradáveis às pessoas que escutam a sua campainha, visto que é, como o piano, símbolo de riqueza, poder e requinte: “Nunca mais que o cabriolé de seu Lula enchesse as estradas com a música de suas campainhas.” (REGO,  1997, p. 211). Aliada a essas representações há a do piano que passa a retratar a falência, conforme: “A luz que vinha da sala de jantar dava para ver o piano estendido, como morto. Há quanto tempo não ouvia uma tocata!” (REGO, 1997, p.158), porque o momento em que o piano pára e, no fim de sua trajetória é quebrado por Antônio Silvino, cristaliza em si mesmo a imagem do declínio.

A estagnação apresentada justifica-se pelo desejo da personagem em querer ficar atado ao passado, o que representa a inadaptação do sujeito no presente, almejando um retorno espaço-temporal que não lhe pertence mais, porém ao qual está vinculado, é o tempo vivido. Por isso, Lula de Holanda deseja que a filha fosse criança ainda, como é visto em: “Por que não era mais aquela menina que ele punha nos joelhos? [...] lembrou-se da infância, das noites de chuva, quando ia botá-la na cama, tão do céu naqueles instantes.” (REGO, 1997, p. 158), pois lhe traz lembranças de felicidades.

Essa impossibilidade de reviver o tempo passado leva à decadência de várias personagens, como as doenças e o rápido envelhecimento depois da constatação do início do fracasso individual. Este insucesso, na narrativa, é materializado pela loucura, então, enquanto as pessoas com desequilíbrio mental estão aprisionadas no tempo de criança, como é perceptível em “A filha continuava chorando como se fosse uma menina. O que era que tinha aquela moça de trinta anos?” (REGO, 1997, p. 9), os familiares que sofrem com a doença do ente querido se acabam fisicamente, envelhecendo e/ou doentes, retratando a degradação. Com isso, no espaço presente (pois convivem na mesma casa) estão atados de formas díspares ao tempo passado, são diferentes formas de representar a decadência, de ficar preso ao passado e refletir isso fisicamente.

Então, as personagens começam a acompanhar a decadência que se anuncia ou que se intensifica. Tome-se como exemplo Lula de Holanda, que tem o primeiro ataque epiléptico e caminha para loucura, bem como Amélia, que envelhece dez anos de uma hora para outra quando todos os escravos deixam o engenho, o que levaria ao seu fim. José Amaro fica mais decrépito e doente a partir do momento que se constata a loucura da filha Marta, fato semelhante ao que acontece com o capitão Tomás, quando ocorre a certificação da doença mental de sua filha Olívia.

Isso acontece devido ao fato de a loucura representar, em certa medida, a decadência individual e coletiva, a primeira porque a família se desestrutura quando uma pessoa próxima fica doente sem perspectiva de retorno do equilíbrio mental – “Pai e mãe se olharam num entendimento de toda a alma. A filha estava perdida.” (REGO, 1997, p. 86). A loucura de Marta é algo desolador, pois a loucura é a perda do sujeito, como se ele tivesse morrido, mas sem o falecimento, é a representação física de algo que se perdeu e, ainda, é como se alguém por quem se tem muito apreço se tornasse a figura concreta da ruína.

No que se refere a uma conjuntura maior, a loucura aparece como a representação do declínio do sistema econômico em um período histórico, a passagem do engenho para usina, que não é assimilado por algumas pessoas. Isso é retratado pela oposição entre dois senhores de engenho, o do Santa Fé e o do Santa Rosa, os dois vivenciaram as transformações, mas este acompanhou o progresso com a sua família, enquanto aquele ficou estagnado e a presença da loucura em sua casa reflete a decadência ali existente.

 

 

O mestre Amaro parou um pouco junto ao paredão do engenho, e reparou nos estragos que a chuva fizera nos tijolos descobertos. Pareciam feridas vermelhas. O bueiro baixou, e a boca da fornalha escancarada, um barco sujo. Lembrou-se dos tempos do capitão Tomás de quem o seu pai lhe contava tanta coisa, das safras do capitão, da botada com festas, das pajeadas, com a casa de purgar cheia de açúcar. Pela estrada iam passando os dez carros do coronel José Paulino carregados de lã para estação. Enchiam a tarde de uma cantoria de doer nos ouvidos. Vinte juntas de bois, dez carreiros, cinqüenta sacas de lã. Era o Santa Rosa na riqueza (REGO, 1997, p. 27).

 

 

Na personagem Lula de Holanda se configura o relevo psicológico, demonstrando o conflito de quem está em uma época que não lhe pertence, pois “Trata-se de um delicado crisântemo da época de esplendor da sociedade imperial transplantado para o clima incerto, para as condições rudes e plebéias do seu período de decadência” (GERSEN, 1991, p. 163). Ele se vê diante de duas sociedades e concepções de vida díspares, sempre uma referente ao passado e a outra ao progresso e, quando contraposto com o capitão Tomás e José Paulino, é possível verificar e intensificar o seu fracasso, o que permite a visão de um ser humano que seria bem sucedido profissionalmente e no âmbito familiar, se estivesse vivendo no período anterior (das tradições e valores decorrentes do patriarcalismo e consolidação do engenho).

Então, como tem consciência do que está perdendo, luta contra e se fecha inclusive em si mesmo, com a casa ilustrando isso (as portas fechadas), o que resulta na ruína econômica e humana deste protagonista que carrega consigo a falência dos familiares, pois está envolto pela loucura, com exceção de Dona Amélia, como é perceptível em: “O velho dava para ter uns ataques de bate-bate, a moça não abria a boca para ninguém. Só mesmo D. Amélia parecia gente de verdade naquele mundo” (REGO, 1997, p. 204). Ela é ciente da decadência: mas acompanha com lucidez a passagem do tempo e vê o engenho e a sua família em ruínas, “D. Amélia fechou a porta da cozinha. Dentro de casa havia uma coisa pior do que a morte. [...] Acabara-se o Santa Fé.” (REGO, 1997, p. 171). A loucura dentro da casa é o que findou tudo. Seus habitantes estão presos em um momento que é recordado, contudo não voltará, devido ao progresso: o espaço recupera o tempo (BACHELARD, 1993), porém, o tempo é único, não é possível viver concretamente algo que aconteceu um segundo atrás (NUNES, 1992) e a loucura mostra a tentativa de reter o tempo, de viver de glórias passadas.

 José Amaro é um ser em conflito, “e as razões sócio-econômicas desse desajustamento [...] parecem por demais evidentes” (GERSEN, 1991, P. 166). Em muitos momentos, o leitor sente que ele exerce o oficio com desgosto, e o motivo é a sua desvalorização, porque antes seu pai era valorizado. O seu desconforto se deve também ao fato de Amaro não ser dono das terras onde vive, pois em uma sociedade estruturada na tradição rural, possuir uma propriedade reveste o indivíduo de auto-afirmação e respeitabilidade. No entanto, ele é posto para fora da sua casa, o que reafirma a já expulsão aos poucos realizada pelo sistema econômico.

Essa falta de valorização da personagem, que está perdida em sua decadência, a faz transbordar em ressentimento, amargura e rancor, o que a leva a agir com rispidez para com todas as pessoas. Há um processo de inadaptação do sujeito diante do meio, o qual se reforça quando Amaro fica sem a casa e a família – pois a filha é levada para um sanatório e a mulher o abandona – , e em sua mudança física: “O mestre José Amaro, com as pálpebras ainda mais inchadas pela noite de insônia, parecia um monstro. A inchação dava-lhe aspecto sinistro.” (REGO, 1997, p. 60). Nesse processo, sobrevém a metamorfose moral ilustrada na imagem do lobisomem (fato que atormenta Amaro), em conseqüência, a sua solidão, o sofrimento, o estar sem lugar no mundo conduzem ao suicídio. A figura do lobisomem expõe a visão das outras pessoas sobre ele, do homem diferente, o que retoma a idéia do desajustamento, seria a concretização, para o outro, de sua situação marginal, ponto que, aliado à loucura de sua filha, demonstra a presença da falência materializada.

Entretanto, a inadequação como reflexo do aprisionamento no tempo, a qual se cristaliza na loucura apresentada nas personagens aludidas anteriormente, desfaz-se em  Vitorino Carneiro da Cunha. No início da narrativa, ele é captado pelas múltiplas visões inseridas na diegese como louco, o homem repleto de delírios, “com um ar de palhaço sem graça” (REGO, 1997, p.17), mas são justamente suas doidices, levadas a cabo pela personagem no decorrer da narrativa, que realçam o seu momento de ascensão popular, a saber: “tem no delírio a maneira de se colocar no centro do mundo” (MARCHEZAN, 2002  p. 44).

A coragem de assumir um posicionamento político, a luta contra as injustiças sociais e ainda o confronto às instituições fazem dele um homem forte, sem temer nada nem ninguém. Apesar de não ter uma vida econômica ativa no seio familiar, isto é, sua esposa Adriana é responsável pelo sustento da família, a honra não lhe é tirada por esse motivo, pelo contrário, ao fim da narrativa, quando tenta socorrer seu compadre do poderio militar, pode ser identificado como uma pessoa ocupada, repleta de compromissos sociais, o homem público. A vergonha e o medo dessa personagem são ocultados em suas ações. Ao oposto de José Amaro e Lula de Holanda, Vitorino se sente totalmente integrado ao convívio social e quer ter participação ativa nas decisões políticas de sua região. Desse modo, este protagonista conseguiu se encontrar nessa nova roupagem da esfera social, a sua visão do voto leva à idéia de evolução, porque acredita que o voto consciente pode mudar a realidade política e social, o que beneficiaria várias pessoas, sendo o seu ideal, o de mudar as coisas.

Vitorino Carneiro da Cunha apresenta traços distintos em comparação com as demais personagens. Como já dito, ele é tido como um Dom Quixote, o “produto de uma época – a dos cavaleiros andantes do fim da Idade Média – ou pelo menos dos livros que recolheram o ambiente dessa época” (GERSEN, 1991, p. 163), o que o liga à questão do tempo. Esse protagonista não está preso ao tempo, mas o carrega quando se pensa na imagem dos cavaleiros andantes do passado. Além disso, leva consigo a imagem da decadência, visto que é de família imponente e precipita-se para o povo, revelando que declina para uma classe desfavorecida, no entanto, ele não demonstra isso nem concretiza em si como ocorre com outras personagens, porque ele possui a auto-valorização. Vitorino sequer sente o sofrimento resultante da derrocada por toda parte, porque “ele não tinha consciência para sofrer. Não sofria, não era capaz de sentir que tudo se acabara, que eles em breve veriam o fim da família que fora tão grande, tão cheia de riqueza. Gostava do povo do Santa Fé.” (REGO, 1997, p. 206), 

Sendo um indivíduo sem medo e que não perde uma briga para defender alguém ou os seus valores, como é característica de um homem dotado de imensa dignidade, a grandeza de Vitorino também se encontra no fato dele animar as pessoas a persistirem ante as dificuldades e a lutarem por seus objetivos:

 

Com efeito, o capitão é uma perfeita transposição do herói de Cervantes. Tem o mesmo desprezo pelas condições materiais, a mesma coragem maluca e, sobretudo, a mesma capacidade de ver as coisas segundo a deformação do ideal, e não segundo o que realmente são. [...] Mas ele não teme os parentes ricos nem as suas artimanhas. Investe contra eles a palavrão, taca e punhal, como contra os delegados, oficiais, prefeitos, opressores do seu povos, gigantes e mágicos de Dom Quixote (CANDIDO, 1991, p. 395-396).

 

 

Vitorino é o “herói louco” (CANDIDO, 1991, p. 396) porque acredita em seu ideal e enfrenta a tudo e a todos por ele. Quanto à loucura, ao oposto das demais personagens, carrega-a por todos os lugares, ultrapassa as paredes, já que no capitão ela deixa de possuir caráter de prisão, pelo contrário, o faz forte, o enche de coragem e pureza na alma, o que o conduz a lutar e a servir, visto que “aquele velho era como se fosse uma criança grande, um menino levado dos diabos.” (REGO, 1997, p. 44). Enfim, a loucura o impulsiona a ir além, pois a pessoa sem o equilíbrio mental acredita ter liberdade e poder para fazer o que quiser. Acrescenta-se que Vitorino vive em evolução constante e, no final, se mostra um ser honrado e de grande humanidade.

       Em relação à loucura, em suma, é o fio promotor do entrecruzamento do passado com o presente: “O tema da loucura, como vemos, adensa-se com a hipertrofia do poder em jogo” (MARCHEZAN, 2002, p.45). Nessa perspectiva, a loucura se fortalece no momento em que há mudanças sócio-econômicas de poder, determinando um comportamento incomum nas pessoas em comparação com as ditas normais; ressalte-se que a maneira como Olívia e Marta reagem diante da realidade não condiz com a idade delas. A insanidade mental é a forma mais expressiva e cruel de ignorar o mundo exterior, porque o ser perde o controle de seus próprios impulsos e é marginalizado pela sociedade, sendo considerado insensível perante as dores humanas particulares e alheias, é incapaz de sentir o passar do tempo e fica sem as rédeas da sua existência, nem mesmo tem consciência da sua vida.

À luz desse aspecto, deve-se notar Lula de Holanda, que está impossibilitado de direcionar e participar do destino de seu grupo familiar, realçando a sua inutilidade no mundo. Essa temática da loucura perpassa toda a narrativa de modos distintos, por exemplo, o capitão Vitorino recusa a alienação, no sentido de se fechar ante o mundo, a sua loucura o impulsiona a viver, traço antagônico em Lula de Holanda, que a tem como uma válvula de escape.

       A loucura também está relacionada à idéia de conservadorismo, visto que é por estarem vinculados ao passado, mesmo que de maneiras distintas, que Lula e José Amaro enlouquecem. No geral, as personagens desejam a permanência de uma estrutura econômico-social, sendo interessante o fato de José Paulino, personagem de outras obras de José Lins do Rego como grande representante da sociedade patriarcal e tradicionalista, acompanhar o desenvolvimento do período, mantendo o seu poder de acordo com a nova ordem, ao contrário das demais personagens ele não se volta para a tentativa de conservar um tempo, estagnando-se.

Além de José Paulino, Vitorino também progride, contudo, deve-se lembrar o seu apego à conservação, como, à patente, já que sempre exige que se refiram a ele como capitão. Já Lula de Holanda e José Amaro estão presos ao tradicionalismo, pois evitam deixar o período em que estão arraigados; por exemplo: aquele não permite que sua filha Neném case-se com um jovem sem ascendência senhoril e este mantém o seu ofício tal qual na época do seu pai. Esse conservadorismo a que os protagonistas estão atados é representado no âmbito da estrutura da narrativa, quando o narrador apresenta as personagens femininas como pano de fundo, sem liberdade, voz ativa e importância, são submissas ou loucas, o que também se refere à questão do tradicional. A loucura a que são submetidas atinge todas as classes, é algo que acontece com qualquer pessoa em espaço e tempo indeterminados, trata-se do aspecto universal presente na obra a partir de diferentes ramificações.

 

 

Considerações finais

 

 

       Fogo morto se sustenta em um regionalismo que volta o olhar para o ser humano, com uma feição sociológica, pintando com um novo tom as cores do sertão, além de expor e analisar de maneira crítica as condições em que vive o homem interiorano, aspecto aliado à intensa investigação psicológica, a fim de captar as conseqüências na vida do indivíduo a partir do processo de desenvolvimento do sistema sócio-econômico. De fato, há uma valorização maior do sujeito, haja vista que este assume o primeiro plano, antes ocupado pelo meio. Assim, é perceptível o elo entre homem e espaço, existe uma íntima tensão em meio a esses dois pólos.

Isso significa que a narrativa deixa de primar pela paisagem e privilegia a representação da realidade social, tendo como foco a vida humana. Por isso, a obra aborda a ascensão e derrocada de um período histórico, no qual retrata a transformação do sistema econômico de engenho para usina. Em Fogo morto, nota-se uma crítica aguçada que entra em consonância com a prosa regionalista de 30, expressa pelo desconforto diante da desumanização que se cria por processos mais complexos, podendo ser identificada a uma literatura de protesto. Acrescenta-se, também, outro aspecto importante neste romance, que vislumbra as discussões deste decênio, a qual diz respeito a uma reflexão acerca do próprio constructo literário, já que a partir das propostas do grupo nordestino a forma romanesca foi redimensionada na tentativa de descrever as situações reais do convívio social por meio da captação do sujeito.

       Como se vê, a obra síntese de José Lins do Rego agrega traços consonantes ao regionalismo no qual está inserido, entretanto, apresenta pontos que destoam de tal tendência, uma vez que os transcendem. Dessa forma, o autor aborda em paralelo a decadência do engenho que se traduz em escala social, mas que atinge o âmbito individual de modos díspares. Como a prosa de 30 possui cunho psicológico, proporciona o reconhecimento do ser humano, o que leva à esfera universal. Em Fogo morto, é por meio da dimensão psicológica que o narrador possibilita ao leitor o conhecimento dos dramas humanos, isso aliado aos elementos narratológicos, em especial tempo e espaço, em que se identifica o transcurso do plano individual para o universal.

Nessa esteira, outro aspecto importante se refere ao foco de visão na narrativa ser primeiro a casa do mestre Amaro, depois o engenho Santa Fé e, finalmente, a Vila do Pilar, refletindo a questão do local para o universal, já que é por meio de particularidades que se chega ao geral. Então, nos é exposta uma seqüência do menor para o maior, a saber: “Toda a obra de José Lins do Rego exprime o homem profundamente identificado com a sua terra, o seu povo, a sua região e por extenso o seu país e a humanidade” (CASTELLO, 1960, p. XIX).

Assim, com o ser humano em close, percebe-se que os sentimentos e sensações pertencentes a um indivíduo podem ser amplificados, ou seja, sentidos por qualquer pessoa em qualquer tempo. Então, pensando nessa questão é que se verifica, na obra, a representatividade de José Passarinho e do cego Torquato, os quais, no princípio, denotam superficialidade. No entanto, no decorrer da narrativa, pode-se visualizar a grandeza de ambos, haja vista a dimensão humana destes. José Passarinho é um constante bêbado e deixa o vício para ajudar o amigo mestre Amaro, exemplo de imensa solidariedade.        

O âmbito universalizante pode ser observado, inclusive, a partir do título da obra, pois a expressão “fogo morto” é utilizada, no Nordeste, quando o engenho pára de produzir açúcar, de tal modo, a intitulação tem afinidade com a decadência da tradição rural da produção de açúcar nessa região aludida, tal como perpassa a vida e o destino das personagens, as quais pertencem em particular ao engenho Santa Fé: é a falência de um período histórico que parte do social para o individual. Então, por meio do título, verifica-se a degradação das personagens na obra tal como a derrocada do engenho, aliada a sua diluição diante desse novo tempo, período abordado pelo romance da transformação dos engenhos decrépitos para a usina ascendente.

Com isso, faz-se necessário reiterar que o espaço retrata a ruína desses seres humanos em relação a uma temporalidade específica, à qual não pertencem mais, porém não conseguem reagir. É o caso do coronel Lula e de José Amaro, que procuram outros refúgios como válvula de escape dessa inadequação, mas tudo os direciona ao fracasso, o primeiro se liga excessivamente à religião, volta-se para as rezas e cantorias da igreja, ao passo que o segundo procura no cangaço – Antônio Silvino – um suporte para os seus desmoronamentos pessoais. Entretanto, tudo em vão, porque não conseguindo se entender nem compreender o mundo, não encontram outra solução que a destruição cabal.

E o final da narrativa retoma a idéia do título, intensificando-a quando enfatiza o ápice da decadência individual e geral, pois a narrativa termina da seguinte forma: “– E o Santa Fé quando bota Passarinho? – Capitão, não bota mais, está de fogo morto” (REGO, 1991, p. 245). Deve-se mencionar que o engenho estava falindo, mas, mesmo que insuficientemente continuava produzindo: “O engenho se arrastava na safra de quase nada. Mas ainda moía.” (REGO, 1997, p. 211). Dessa maneira, é somente no término da narrativa que se constata o cessamento por completo, tanto do engenho, que derrocou irremediavelmente e parou de produzir, quanto, por exemplo, de Lula de Holanda, que acaba louco, e de José Amaro, que se suicida, são as últimas saídas encontradas por esses protagonistas diante do desajuste.

Portanto, com a declaração de “fogo morto” concretiza-se que tudo acabou para sempre e, ainda, o que se presencia é uma tensão em última instância do homem com o espaço, aqui representado pelas personagens e pelo meio, ao passo que um não existe na falta do outro, haja vista que se completam. É a partir da visualização da bancarrota do engenho Santa Fé, eixo da narrativa, que é retratada a falência de seres humanos em um tempo ao qual não pertencem, permanecendo inadequados. Assim, “fogo morto” finaliza a obra e cristaliza toda a decadência por ela representada.

Fogo morto é, pois – e sobretudo – “uma obra ímpar entre os publicados em 1943” (CANDIDO, 1997, p. 393) por abordar com profundidade o ser humano, eis o viés que alça esse romance para além do período literário no qual se insere, o regionalismo de 30, pois com enfoque no homem atinge o plano universal (COUTINHO, 1997, p.430). Assim, neste romance, as instâncias narrativas tempo e espaço aliam-se à representação da inadaptação dos indivíduos na sociedade em que vivem e essa falta de acomodação é materializada na loucura. Isso se deve ao fato de a obra pertencer à prosa de 30, momento no qual os autores se voltam para a questão sociológica. Então, é por meio da investigação psicológica, que é aliada na narrativa à visão multifacetada das personagens, que se pode captar com clareza o desajuste humano em uma esfera coletiva que é apreendida a partir de casos particulares, é o universalismo alcançado através de algumas das especificidades deste romance.

 

 

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Artigo recebido em 20/11/2007 e aprovado em 11/03/2008.